segunda-feira, 23 de março de 2015


Invasão da Favela - Eduardo Marinho


A MÃO INVISÍVEL**

Na favela
Após o jantar
O erudito
Da subclasse
Proscrito as artes
Sentou na varanda
Do parco barraco
Sentido a brisa
Foi ler um bom livro
Para entender
A mudança do mundo
Imundo
Do capital
E o poder neoliberal.

Lia para entender
A ferida
Foi morto
Por bala perdida
Melhor ter ficado
Ignorante
Na cama
Não se expor
A selva hobbesiana.*

Uma homenagem a Eric Hobsbawm – Jaime Baghá

*Thomas Hobbes 

** “A mão invisível” de Adam Smith e a mesma que rouba o teu bolso e que faz o marginalizado pelo estado apertar o gatilho.



Segunda Classe - Tarsila do Amaral


“A situação de carência vivida no quotidiano das massas, onde não há nenhuma ocorrência excepcional, onde o indivíduo tem de levantar-se cedo todas as manhãs, pegar um ônibus cheio, passar lá mais de uma hora, executar um trabalho maçante, relacionar-se superficialmente com os seus colegas de trabalho, ir cansado para casa, pegar outro ônibus cheio e viajar mais tanto tempo, chegar em casa, jantar, sentar-se diante da TV, cochilar e por fim dormir, para ter no dia seguinte tudo outra vez, por uma vida toda, essa vivência sem novidades, sem emoções, sem ocorrências que fujam do quotidiano retiram do sujeito o verdadeiro prazer de viver.”
Ciro Marcondes Filho.


1. Os funcionários não funcionam. Os políticos falam, mas não dizem. Os votantes votam, mas não escolhem. Os meios de informação desinformam. Os centros de ensino ensinam a ignorar. Os juízes condenam as vítimas. Os militares estão em guerra contra seus compatriotas. Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os. As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados. O dinheiro é mais livre que as pessoas. As pessoas estão a serviço das coisas.

2. Tempo dos camaleões: ninguém ensinou tanto à humanidade quanto estes humildes animaizinhos. Considera-se culto quem oculta, rende-se culto à cultura do disfarce. Fala-se a dupla linguagem dos artistas da dissimulação. Dupla linguagem, dupla contabilidade, dupla moral: uma moral para dizer, outra moral para fazer.

3. Quem não banca o vivo, acaba morto. Você é obrigado a ser fodedor ou fodido, mentidor ou mentido. Tempos de o que me importa, de o que se há de fazer, do é melhor não se meter, do salve-se quem puder. Tempo dos trapaceiros: a produção não rende, a criação não serve, o trabalho não vale. No rio da Prata, chamamos o coração de bobo. E não porque se apaixona: o chamamos de bobo porque trabalha muito.
Eduardo Galeano.

“A nossa vida social é agora dominada por restrições que o medo e a raiva impõem à liberdade. O medo e a violência restritiva podem tornar-se prazeres viciantes, reforçados por dirigentes esquizofrênicos e um sistema econômico que depende da restrição da liberdade, da produção de medo e do incitamento ao comportamento violento.”
Dr. Timothy Leary.

Glauber Rocha - Cineasta brasileiro


O sonho é o único direito que não se pode proibir. 
O sentimento de colaboração humana renova e revela uma nova categoria de indivíduo, mas é necessário para isso que a velha cultura seja revolucionada.
Nenhuma estatística pode informar a dimensão da pobreza. A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem.
Na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão.
A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza.
A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo.
As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres.
A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora.
A cultura popular será sempre uma manifestação relativa quando apenas inspiradora de uma arte criada por artistas ainda sufocados pela razão burguesa.
A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.
O Povo é o mito da burguesia.
Glauber Rocha





quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015


A CULTURA PERDIDA

Um dos grandes filósofos, Voltaire, nunca fez notas de rodapé, eu o faço porque não tenho a grandeza de Voltaire e esqueço alguma coisa na hora em que mais preciso. Porém sou ousado como Friedrich Nietzsche, este mesmo que ousou matar o deus inventado dos homens e acabar com o dualismo imbecil que faz os homens pensar em rebanho, mas na verdade vive a solidão de sua mesquinhez, na sua ignorância classifica o outro, aponta como fosse ele o certo.

Albert Einstein quando escreveu a teoria da relatividade, seria reprovado em alguns colégios e universidades, apenas porque as medidas do seu texto não eram iguais as da norma reinante, como se métrica e mancha de texto fossem essenciais para a compreensão de um conteúdo.

Eu como conteúdo crítico e inviso pela “nossa elite cultural provinciana”, incomodo mais uma vez ao dizer que nossos centros de educação esquecem rapidamente a etimologia do seu próprio nome, não buscando a cultura com quem a conhece, talvez por medo de que a ajuda pode ofuscar a parca luz (se é que ela existe), que este dinossauro do ensino pensa em possuir.

O motivo principal da formação de uma confraria exclusiva se alternando no poder é justamente a falta de uma abrangência literária e cultural, por preguiça ou acomodamento, achando desta forma um incômodo ou mesmo falta de visão, revolucionar a sociedade onde vive para o conhecimento. Através de convites e colaboradores, ou mesmo dar mais liberdade para novos professores que vivem apagados, porque não podem se manifestar e abrir-se todo para o seu potencial castrados pelo sistema que os persegue devido a uma falta de visão de vanguarda.

Estes educadores acossados, vão acabar igual ao velho dinossauro, obedientes ao sistema, acostumado ao salário miserável, posição do social do “tudo bem”, privando desta forma o aluno para um conhecimento mais abrangente, e maior conquista para o advento de mercado.

Venham para o futuro, diz o lema da escola, quando deveria ser, venham debater com a gente se existe e o que é o futuro. Faça a escolha certa diz outro lema, enquanto deveria ser, venha debater o conceito de certo e errado. Dentro da grande razão do professor dinossauro isto não existe, porque ele pensa que faz o trabalho da verdade, esquece-se da fabricação de dúvidas e de levar o aluno ao autoquestionamento.

Não se aprende mais filosofia (aqui na província, filosofia é uma piada, trocada por ridículas aulas de criacionismo), não se quer saber de literatura, todos se lixam para a sociologia. Isto vai acabar em prédios horrorosos no nosso cotidiano, pois o engenheiro não tem nenhuma formação social, o advogado vai ser um rábula ou mau juiz, pois nunca leu Kafka. Precisamos de engenheiros que saibam escrever, sociólogos que tenham lido Dostoievski, de professores que tenham se deliciado com Rimbaud, viajado com Fernando Pessoa, precisamos mesmo é de profissionais e educadores que tenham lido Marx, que saibam quem foi Hobsbawn, conheçam Zygmunt Bauman, Ezra Pound, obras de Machado de Assis, textos de Clarice Lispector, Saramago, poesias de Ferreira Gullar. Não daquela maneira decorativa encima de um escritor, a aula toda de Jose de Alencar, numa sabedoria maçante e decorada que causa sono nos alunos. 

Esta preguiça e falta de perspectiva do professor jurássico, vai fazer muitos desistir do estudo e do verdadeiro conhecimento e os que sobrarem, numa minoria, vai ser apenas técnico de mercado ou mais um professor mal preparado.

Já estamos tendo uma sociedade de tecnicistas, esta coisa que ninguém sabe exatamente o que é despreparado para uma vida social e cultural, vivendo nas confrarias políticas de atraso para segurar o seu vil metal e sua “posição” na sociedade decadente, individual e perniciosa. Este acadêmico inculto não sabe compreender uma arte, não adianta ir a um teatro, pois não vai entender a peça, até desconhece o autor.

Não conseguem ler um verso de Drumonnd, não entendem o “Humano demasiadamente humano de Nietzsche”, “O Homem Revoltado” de Camus, a visão política de Bertolt Brecht, não tem preparação intelectual para a crítica e a autocrítica com propriedade para compreender e separar discursos, para saber votar, para formar opinião, para se rebelar contra a insanidade prosaica da política, para aceitar seu semelhante diferente, sem rotular, enfim, para questionar até quem é, de onde veio e para onde vai, como fez num quadro o pintor Paul Gauguin.

Sugiro (se é que vai adiantar a sugestão), buscar na sociedade por pessoas de conhecimento, desde o nativo interiorano com suas essências naturais e histórias do folclore, até o mais louco poeta (ou quem pensa que é), o intelectual ou qualquer pessoa que representa alguma forma de arte. Abram as oficinas, pois tenho a certeza que vai ajudar a formar gente com mais compreensão de sua realidade, independente se ele continue agricultor ou fique com qualquer outra atividade. Seja um operário ou com uma formação acadêmica, o fato é que vai haver uma mudança, um novo autoquestionamento. Mas isso a sociedade não vai cobrar nunca, só quem pode mudar é o seu próprio discurso, é seu pronunciante com a visão cultural, amparada por verdadeiros mestres, aquele que muda, inova e aceita o conhecimento, sem o desdém da oligarquia burra na sua redoma antiga, conservadora, hipócrita e acomodada.

Os jovens vão parar de fazer cenas de filmes trash americanos, pois vão conhecer os dramaturgos e quem sabe até peças de Shakespeare, Artaud, Ionesco, Plinio Marcos, Jose Celso Martinez, Augusto Boal, Nelson Rodrigues, etc... Quem sabe exista mais liberdade da poesia atingir toda a sua dimensão e todas as suas linhas com mais recursos literários, com certeza sairemos daqueles concursos enfadonhos de versinhos e de amor exacerbado com cheiro de orgasmo no ar. Nesta sociedade temos jovens de grandes qualidades, mas que necessitam de mentores com qualidade.
 Jaime Baghá  - Na linda província, achando um desperdício de talentos castrados pela ignorância.

“É difícil evitar que nossas visões mais elevadas pareçam loucuras e por vezes até crimes, quando chegam a ouvidos que não são capazes de compreendê-las”.
 Friedrich Nietzsche

"Nós vos pedimos com insistência
não digam nunca:
isso é natural!
diante dos acontecimentos de cada dia
numa época em que reina a confusão
em que corre o sangue
em que o arbítrio tem força de lei
em que a humanidade se desumaniza
não digam nunca:
isso é natural!
para que nada possa ser imutável!"
Bertolt Brecht


Luta de Classes - Antônio Berni, pintor argentino

"Em lugar de comunicar-se, o educador faz "comunicados" e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção "bancária" da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. Educador e educando se arquivam na medida em que, nesta destorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros".
Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido.


Os países pobres são subdesenvolvidos não por razões naturais - pela força das coisas - mas por razões históricas - pela força das circunstâncias.Circunstâncias históricas desfavoráveis
principalmente o colonialismo político e econômico que manteve estas regiões à margem do processo da economia mundial em rápida evolução.

Na verdade, o subdesenvolvimento não é a ausência de desenvolvimento, mas o produto de um tipo universal de desenvolvimento mal conduzido. É a concentração abusiva de riqueza - sobretudo neste período histórico dominado pelo neocolonialismo capitalista que foi o fator determinante do subdesenvolvimento de uma grande parte do mundo: as regiões dominadas sob a forma de colônias políticas diretas ou de colônias econômicas.

Esta tremenda desigualdade social entre os povos divide economicamente o mundo em dois mundos diferentes: o mundo dos ricos e o mundo dos pobres, o mundo dos países bem desenvolvidos e industrializados e o mundo dos países proletários e subdesenvolvidos. Este fosso econômico divide hoje a humanidade em dois grupos que se entendem com dificuldade: o grupo dos que não comem constituído por dois terços da humanidade, e que habitam as áreas subdesenvolvidas do mundo, e o grupo dos que não dormem, que é o terço restante dos países ricos, e que não dormem com receio da revolta dos que não comem.

Ora, o problema do subdesenvolvimento não é exclusivo destes países; é antes um problema universal, que só pode ter soluções igualmente em escala universal. Viver na opulência, num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigoso, é um crime. A tensão social na qual se vive hoje é, na maior parte das vezes, o produto desta conhecida injustiça social, já que os povos dominados tomaram consciência da realidade sócio-econômica do mundo.

Cada vez se pergunta com mais insistência se desenvolver-se significa desumanizar-se, nesta frenética busca de riqueza, de acordo com a fórmula preconizada pelo ocidente de maximizar os lucros em vez de maximizar as energias mentais que enriquecem com mais rapidez a vida dos homens e podem dar-lhes muito mais felicidade.
Josué de Castro


sábado, 24 de janeiro de 2015

Vista de cima do Morro das Mortes

Assobiando um blues

Amanhece no tranquilo lugarejo das Mortes
Eu assobio um blues
O velho leiteiro passa com seu cavalo magro e manco
O louco asmático em transe manca
Cantando em bom tom canções bas fond.

O sino badala o despertar
O policial magro passa com seu carro negro
Parece um vilão de Chester Gould
Perseguindo meninos malucos
Agroboys ensandecidos.

Os verdadeiros malucos passam
Com seus bigodes aparados
E suas esposas hipocondríacas
Seus filhos bem nutridos
Com suas bugigangas eletrônicas
Posando como figuras opulentas
Com adornos ultrapassados.

Quem não acordou faz amor
Antes de se indispor
Tocando naquela ferida
Esmorecendo aquela indigesta relação
Separando sem nenhum perdão.

Pronto!
Mais dois solitários nos dias de festas
Dos bons samaritanos
Das religiões diversas
Onde abandonados procuram amparo
Na fila da desolação.

Mais personagens no cenário surreal
Da língua infame
Dos confrades do banco do veneno
Com suas zombarias fúteis
Destilando seus malogros
Das suas vidas inúteis.

O causídico paranóico
Disfarça um caminhar elegante
Com sua falta de vida
Seus pecados
Sua vileza
E sua vida perdida.

O andarilho passa
Com cara de feliz, senil e inseguro
Cheirando a aguardente
Diz que vai ganhar o mundo
E é uma estrela de um palco escuro.

O homem da loja que caçoava
Esta sem rumo
Tornou-se um personagem de sua derrisão
Agora prova seu veneno
Seus personagens lhe fazem escárnio.

O velho assexuado esta feliz
Mas ainda sofre de chiliques
Esta a serviço do politiquês
É um adulador aprendiz.

O auto-falante passa
Abusado, grasnando
Gritando sobejos
Tocando músicas triviais
Insanidades a varejo.

Pessoas tristes
Na fila da saúde
Senhoras com palpitações
Homens macambúzios
Pensando em ataúdes.

Os meninos caminham
Para a máquina de moer
Com suas mochilas descomunais
Entre as paredes da escola
Descobrem pouco saber
Mas aprendem a jogar bola.

As ambulâncias partem
Em busca da sorte
Levando o mórbido
E a mulher do fricote.

Seu companheiro que vagueia nos bares
Anseia a noite para os destilados
Bisbilhotar o alheio
Entre risos, algazarras e carteados.

O Rei esta nu
A corte finge não ver
Felizes nos rega-bofes
Vaidosos no poder
Vassalos vivem a anomalia
Perdem status e conceitos
Com parcas economias

Dias de festas
Toada, salmos e destilados
Esbórnia e pequenas arestas
Demodés políticos perfilados
Orgias e pouca cultura
O grande circo esta armado
Panis et circenses
Para o simples e bom camponês
Ver o mesmo diferente

Eu visto minha jaqueta verde
Caminho pelas ruas dos ingênuos
Assobiando um velho blues
Compassando as notas
Na manhã desafinada
Vivendo nos sonhos.

Sou uma sombra
Com um sorriso idiota.

Jaime Baghá ,  mais um personagem.


sábado, 10 de janeiro de 2015



“Eu também sou Charlie” 
Por sempre admirar artistas com a grandeza de Charb (Stéphane Charbonier), Cabu (Jean Cabut) e Wolinski (Georges Wolinski), que com seus traços e seu humor mostram toda a ignorância humana. Muitos cartunistas da minha geração foram importantes na forma como moldaram o meu senso crítico. Quando eu era jovem, via nossos grandes cartunistas brasileiros no semanário “O Pasquim”, com humor debochado, ferino, feroz, de sarcasmo irônico e criativo, que me fez conhecer nomes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius, Fortuna e Henfil. Estes, numa época de boçalidade e da opressão da ditadura, lutavam para mostrar a verdade, com coragem contra a censura, o preconceito e a vilania. Com este pessoal aprendi que a maior arma contra a ignorância é a caneta, com textos e traços ingênuos, porém grandioso e inteligente que diz tudo e mostra a fachada por detrás da máscara dos poderes doentios, fanáticos e dementes. Artista como Wolinski inspiraram muito de nossos melhores cartunistas brasileiros, os quais eu tenho a maior admiração por ter aprendido a ver o mundo e os fatos com maior clareza, e, a saber, distinguir melhor o caráter dos poderosos. Vivam os Pasquins, Viva os Charlie Hebdo e todos os jornais satíricos do mundo com seus escritores e cartunistas, que no papel de bufão e numa luta utópica, nos faz ver os vícios de uma sociedade e a verdadeira face dos hipócritas, dos intransigentes, dos fascistas, dos racistas, dos que discriminam e dos canalhas do mundo.
Jaime Baghá





terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Farol da Solidão - RS

Farol de Santa Marta - SC

Praia da Azedinha - Búzios

Mar de Salvador

Salvador - BA

Mergulho na Ilha de Itaparica - BA


EU E O MAR

Nasci na beira do mar de Torres, no Rio Grande do Sul. As primeiras e vagas lembranças são do meu pai puxando um carrinho de madeira comigo dentro que ele chamava de Cadillac, foi meu pai mesmo quem construiu. Nestes passeios quase diários nos fins de tardes dos finais de semana, meu pai corria puxando o carrinho nas pequenas ondas que vinham na beira da praia para eu ver a água levantar com a velocidade e molhar-me com os pequenos respingos, causando meu divertimento. Eu era muito menino, mas foram fatos tão marcantes e belos que se eternizaram na minha mente, tenho guardado uma foto dirigindo o meu Cadillac.

Muito cedo fomos morar em Porto Alegre, mas sempre vínhamos no final do ano passar as férias no mar de Torres, e em Santa Catarina. Era um tempo em que vir para o mar era coisa de veranista. Quando fiquei mais independente fui para o mar de mochila nas costas, logo estava pegando uma estrada de moto com amigos e namoradas e as vindas para o mar se tornaram mais constantes.

Em nossos roteiros sempre iniciávamos por Torres-RS, dali íamos para Santa Catarina. Nossa primeira parada começava em Laguna, no Farol de Santa Marta, o lugar além de belíssimo tinha muita liberdade e um bom peixinho no Bar do Seu Valdir. Algumas vezes parávamos em Itapirubá, mas nossa preferida era a Praia do Rosa, a mais linda, com uma natureza belíssima e frequentada por um pessoal muito legal, berçário natural das baleias, muito verde ao lado da Lagoa da Ibiraquera, uma lindíssima área de preservação. Gostava (e ainda gosto) de ir ao Rosa Sul e conversar com os pescadores e ouvir os “causos” do Seu Anastácio, pescador antigo do local.

Do Rosa íamos à Ferrugem, Garopaba, Guarda do Embaú e Florianópolis. Em Floripa tenho minhas praias preferidas, dar uma volta na Lagoa da Conceição, ir à Barra da Lagoa mergulhar perto dos costões, e para ir com uma agradável companhia nada supera o Matadeiro, minha preferida na ilha.

Após os vinte anos, criei asas e voei para outros mares, começando no Rio de Janeiro, achando praias belíssimas como Copacabana, Ipanema e Leblon. Mas, o legal era ir para a Praia do Pepino, ali no finalzinho do São Conrado, este era o point com um lindo visual da Pedra da Gávea e um mar muito azul e suas areias bancas. Gostava do pessoal maneiro que frequentava esta praia.  
Outra legal era ir para Arraial do Cabo, ótimo para uns mergulhos e lugares fantásticos, como a Prainha, Gruta Azul e Pontal do Atalaia. Dali, ia até Búzios e passava na Praia dos Ossos para ir na Praia da Azedinha e suas areias cor de caramelo.

Achei belíssimo Porto Seguro, na Bahia, em especial Arraial D’Ajuda. Outra praia que gostei foi Porto de Galinhas, em Ipojuca, no Pernambuco, estas eram mais legais antes da loucura do turismo. Morei com uns amigos no Recife, na beira da Praia da Boa viagem, onde gostava de tomar uma água de coco e conversar com o pessoal das jangadas e o pessoal nativo. À noite curtia os barzinhos e constantemente ia para Olinda, onde tinha amigos, e no carnaval saia num bloco chamado “Segura a Coisa”. Outra praia inesquecível é Canoa Quebrada no Ceará, com suas falésias e Dunas e onde aconteciam os mais lindos luaus. 

Quando morei em Salvador-BA, gostava de caminhar na Praia de Amaralina, comer um acarajé no Jardim de Alá ou dar um pulo na Praia do Forte, e depois em Arembepe curtir uma paz na Aldeia Hippie e ver o Projeto Tamar, que estava iniciando. Porém, meu local preferido em Salvador era Ilha de Itaparica, mais precisamente na Penha, no Mar Grande, perto das ruínas do Forno de Cal. Ali eu passava manhãs mergulhando entre os corais e algumas vezes ajudava os nativos locais a pegar lagostas.  Para o descanso maior, ia para a tranquilidade da Praia do Berlinque via estrada Cacha Pregos, onde gostava de ir com a namorada que levei para Salvador, a qual eu vesti de baiana e me casei, sou um soteropolitano de coração por esta magia vivida.

Há, ia esquecendo-me de um lugar muito especial e muito nosso, que é o Mar da Solidão, na Praia da solidão, onde o próprio nome já o define. Com suas praias paradisíacas, desertas e seus faróis tristes, um lugar ótimo para pescarias e caminhadas, mas com um mar algumas vezes muito furioso, onde você anda por quilômetros sem ver alguém, a não ser algum pescador solitário. Esta praia fica no município de Mostardas-RS, onde fica o Farol da Solidão, dali até o Farol de Tavares-RS, é um lugar de muita paz e tranquilidade onde só se ouve o barulho do mar e os albatrozes. Mostardas fica num istmo formado pela Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, é um lugar lindíssimo de campos e lagos, muitos açudes e local de parada de aves migratórias.

Cruzei por muitos caminhos e andei por muitos mares do Brasil, aqui citei só os principais, andei por alguns cantos da América Latina. Virei funcionário de gravata, preso numa sufocante sala de um edifício de uma metrópole. Amo Porto Alegre, mas um dia arranquei aquela roupa, joguei fora aquele molho de chaves (parecia um carcereiro), peguei mulher e filho e fui viver no interior, bem perto do mar, com os parentes me chamando de louco por abandonar a metrópole e o lindo e promissor emprego. Optei pela qualidade de vida, fui fazer o que sempre sonhei construí uma casa do meu jeito com muita madeira, com pés de Ipês floridos, palmeiras Juçaras, árvores frutíferas, muita Pitanga, Araçás, Uvas, Butiá, Romãs, Bromélias e Orquídeas.

Vivo muito feliz e de vez em quando vou olhar o mar dos alcantis, caminhar molhando os meus pés no mar, lembrando meu pai e o meu cadilac que ele puxava por sobre as ondas que batem na beira da praia. Voltei para o meu mar, o Mar de Torres, onde ficou meu umbigo e um dia ficarão meus restos, quando chegar o fim desta curta, mas fantástica viagem chamado vida, a qual eu acho que para valer a pena, nada é igual do que a vida na beira do mar. “Ver na vida algum motivo prá sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do mar...”.

Jaime Baghá, 
Que sempre achou que o mar é de quem o sabe amar e a felicidade é um fim de tarde olhando o mar!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014


"A manipulação e a utilização sectária da informação deformam a opinião pública e anulam a capacidade do cidadão para decidir livre e responsavelmente. Se a informação e a propaganda são armas de enorme eficácia nas mãos dos regimes totalitários, também não deixam de o ser nos sistemas democráticos; quem domina a informação, domina de certa forma a cultura, a ideologia e, portanto, também controla em grande medida a sociedade".
 Noam Chomsky.


Máscara peruana, povo Moche.




"Enquanto
estamos vivo, não
podemos escapar de
máscaras e nomes. Somos inseparáveis de nossas
ficções - nossas
feições".
Octávio Paz.




"Tenha cuidado com seus líderes, pois existem muitos nas suas fileiras que prefeririam ser presidente da General Motors do que incendiar o Posto Shell da esquina. Mas como eles não podem ter um eles pegam o outro. São esses os ratos humanos que por séculos nos têm mantido onde nos encontramos".
Charles Bukowski.




Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não somente a obedecer, mas a servir, não governadas, mas tiranizadas, sem vida a que possam chamar de sua?

Mas o que acontece afinal em todos os países, com todos os homens, todos os dias?
É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.

Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem tudo.

Onde iriam eles buscar os olhos com que vos espiam se vós não lhes désseis?
Onde teriam eles mãos para vos bater se não tivessem as vossas?
Como ousariam eles perseguir-vos sem a vossa própria conivência?

Que poder têm eles sobre vós que de vós não venha?
Semeais os vossos frutos para eles pouco depois calcarem aos pés.
Recheais de mobílias as vossas casas para eles virem saqueá-las, criais as vossas filhas para que eles tenham em quem cevar sua luxúria.

Criais filhos a fim de que eles, quando lhes apetecer, venham recrutá-los para a guerra e conduzi-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua cupidez e executores das suas vinganças.

Matai-vos de trabalhar para que eles possam regalar-se e refestelar-se em prazeres vis e imundos.

Etienne de La Boétie
em Discurso Sobre a Servidão Voluntária



Rebanho de vacas

... a visão de uma humanidade transformada em rebanho de vacas. Uma humanidade que pastará e ruminará satisfeita e inconsciente, consumindo erva, na qual uma elite invisível de "pastores" tem interesse investido, e produzindo o leite para tal elite. Tal humanidade será manipulada pela elite de maneira tão sutil e perfeita que se tomará por livre. Isto será possível graças à automaticidade do funcionamento da vaca. A liberdade ilusória encobrirá a manipulação "pastoril" perfeitamente. A vida se resumirá às funções típicas da vaca: nascimento, consumo, ruminação, produção, lazer, reprodução e morte.
 Vilém Flusser




Os conservadores, os entreguistas e a burguesia são do mesmo time. Eles só têm poder porque manipulam aqueles que lhes sustentam, eles vivem montados e escravizam aqueles pobres coitados. O mais triste é que, por serem manipulados durante tanto tempo, passam a admirar seu carrasco e fazem de tudo para copiar seu verdugo. 

A elite dominante na política cria e fabrica o marginal e o usa como mecanismo para uma política de repressão ao social. Muito dos que lotam as prisões são crias do autoritarismo, iludidos na sofisticada máquina da ilusão, que mostra uma falsa confiança aos ricos e o terror para os pobres, negros e mestiços. Quando essa grande maioria pobre e discriminada se revolta, o fato não é visto como política e sim como ato criminoso. A revolta dos mais pobres não tem o direito de exigir direitos ou respeito, tem somente que se resignar e obedecer. 

Nosso inimigo público apresentado nos noticiários da TV geralmente é um menino pobre, negro, franzino, pés descalços e de bermuda, este é o nosso inimigo público número 1, fruto de um estado relapso, corrupto, malfeitor, que usa o lucro do medo e manipula o voto. Esta praga parasita que vem se perpetuando no poder se torna um poderoso por causa dos conluios, critica os programas sociais que ajudam os pobres, critica os vales que o governo oferece aos mais necessitados, no entanto esse ser híbrido recebe vales vultosos de todos os tipos, vale aéreo, vale terno, vale moradia e toda espécie de vale para triplicar seus salários. Eis os verdadeiros escroques do país, que ainda exigem ser chamados de “excelência”. Os desgraçados que vivem a margem desta sociedade é a mercadoria que sobrevive numa desigualdade legitimada e marcada pelos interesses de uma elite inescrupulosa no poder político e no judiciário.

Jaime Baghá