quarta-feira, 28 de maio de 2014


Como eu conheci a ditadura
Eu não sabia o que estava acontecendo. Lembrava-me de outras inquietações, que mais tarde descobri: era Brizola, um dos maiores políticos deste país, defendendo com a Legalidade a democracia e a posse de Jango (João Goulart) na presidência do Brasil, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.
Em 1964, com 13 anos, outra situação de inquietação. Essa bem maior: era a Ditadura Militar no Brasil. Assim, quanto mais eu avançava na idade, mais eu tomava conhecimento dos fatos e mais assustadora ela era.
Quando entrei no Curso de Técnico Agrícola, do antigo “ginásio”, pude obter mais informações sobre o que se passava no país. Pois, tinha os alunos do final de curso, esses com mais de vinte anos e com uma visão mais ampla da situação. Dentre eles o presidente do Grêmio Estudantil, que tinha uma liderança muito forte, era o líder desta turma. Ele e alguns professores nos abriram a mente para os questionamentos políticos e as mazelas da ditadura. O contato com essas pessoas me deu conhecimento sobre o que estava acontecendo no Brasil, neste período comecei a entender as canções e as manifestações artístico-culturais com teor político, em cena na época.  Dei meu adeus a Jovem Guarda. “Alegria, Alegria”, só queria ouvir Chico, Caetano, Taiguara, Vandré e outros da MPB nos efervescentes festivais da canção.
De uma maneira pueril entendíamos que os militares eram os bandidos e os perseguidos os mocinhos, principalmente os estudantes das capitais com suas manifestações contra o regime. Com toda esta informação e vendo a truculência e a irracionalidade dos militares e seus órgãos repressores, eu e outros garotos só não entramos para nenhum grupo porque éramos muito jovens e não tínhamos conhecidos na subversão. Éramos mais pobres e nossa contestação se reduzia a um pequeno grupo de teatro amador do qual fazíamos parte.
Num belo dia, próximo das férias, chegaram os militares no colégio para falar sobre nosso alistamento, aquilo foi à gota d'água. Demos uma violenta vaia no tenente, dissemos que não queríamos servir o exército, não queríamos armas e nem matar estudantes. A situação tomou outro rumo, o tenente - um sujeito magrinho e de voz aguda - arregalou os olhos, deu uma violenta descompostura na turma e no meu caso especial por ser o metido.  Disse que ia me pegar, ameaçou outros da mesma maneira e foi novamente vaiado.
 O alistamento só não terminou em detenção porque éramos menores. Acho que deixamos a direção do colégio em maus lençóis, porque fomos chamados atenção pelo chefe de disciplina e o presidente do Grêmio Estudantil sumiu por um tempo. A situação ficou dramática. Não ganhei meu documento de reservista, a famosa terceira que dava dispensa de servir as forças armadas. Não pude jurar a bandeira (pois, se o tenente me visse estava ferrado), meu pai me enviou para umas férias na casa do meu avô João em Santa Catarina e contou-me que meu avô Chico (parte de mãe) era muito político, ele conseguiu o meu certificado de reservista com ajuda do Deputado Brusa Neto de Porto Alegre. Eu sempre lembrando o olhar furioso daquele tenente, ficava de olho nos lugares aonde ia, fiquei muito tempo me cuidando do tal militar.  Porém, muito provavelmente, aquele militar já tinha se esquecido de nós a muito tempo, não passávamos de meninos.
Em dezembro do ano em 1968, foi baixado o Ato Institucional nº. 5, o famoso AI-5 que definiu o momento mais duro do regime militar, dando poderes de punir arbitrariamente qualquer pessoa que fosse considerado inimigo do regime.  O próprio Deputado Brusa Neto, que me ajudou com o meu cerificado de reservista, foi cassado pelo AI-5.
Após a saída do colégio, eu nunca mais soube do Presidente do Grêmio Estudantil. Recentemente eu soube que ele morreu, e que ele foi político, prefeito de um município do interior do Rio Grande do Sul. Um grande sujeito que mostrou para mim, e creio que a muitos outros meninos, uma visão diferenciada sobre o que era a política.
Sem querer pensar apenas na ousadia de menino, meu momento contra a ditadura foi no “ano que não acabou” (1968), marcado na história do Brasil e do mundo como o grande momento da contestação da política e dos costumes, era “proibido proibir” e eu ainda não sabia disso. Sem saber eu estava com um pé na contracultura escutando os Mutantes e Caetano. Caetano que disse ao público “vocês não estão entendendo nada” e com razão. No ano seguinte já estava curtindo o Festival de Woodstock, o Festival Sul-Brasileiro da Canção em Porto Alegre e perambulando pelas ruas da cidade.
Bem mais tarde também descobri que a ditadura não foi só dos militares, alguns militares até foram contra, foi civil-militar porque contou ativamente com a participação de empresários. Estes mesmos civis fazem parte de uma burguesia entreguista “brasileira”, um câncer que vive hoje como neoliberais. Foram inspirados pelos “conselhos” dos norte americanos para criar entidades como a OBAN, IPES, IBADA, para auxiliar e financiar o golpe e a repressão.
Notei que muita gente queria o golpe, foram atrás de conversa de padres e políticos conservadores, até na família tive uns parentes babacas (todos tem alguns), que ficavam naquele altar de família, propriedade, e bons costumes. Depois se assustaram e passaram a fazer oposição à ditadura. Alguns dos seus filhos continuam idiotas até hoje, achando que se ficarem ricos vão ficar burgueses e inteligentes. Vivem da pecúnia e alguns de conveniência, achando que pobre é vagabundo. Esses são a “abominação política” como diz Marilena Chauí.
Eu me transformei num bom leitor, principalmente dos escritores marxistas. Aprendi que um não pode comer e o outro ficar olhando, entendi a ver melhor que a transformação da sociedade só poderá acontecer por meio de uma distribuição equilibrada das riquezas, das rendas e das propriedades, diminuindo a distância entre ricos e pobres.
Encontrei o pessoal da esquerda festiva (como dizia o safado do Lacerda) e nunca mais fui o mesmo. Se alguma coisa valeu na minha vida foi esta transformação, que me ensinou a gostar de poesias, artes, músicas de qualidade; de ter ótimos amigos, mais sensibilidade e de ser mais humano "demasiado humano" como dizia Nietszche.
Jaime Baghá

“Institucionalizou-se o terror cultural, numa revivescência dos ultrapassados tempos de Hitler. Universidades militarmente ocupadas e os coronéis da linha dura, inquisitorialmente, boçalmente, interrogando as expressões maiores da inteligência e da cultura do Brasil, apreendendo livros, dando buscas nas livrarias, confiscando como subversivos, Guerra e Paz de Tolstoi, Nosso Homem em Havana de Henry Greene, O Vermelho e o Negro de Stendhal. Esses interrogatórios e essas apreensões de livros, se não fossem as trágicas consequências das torturas, dariam um saboroso anedotário, uma antologia folclórica, um expressivo atestado de burrice.” 
Do texto “Memórias de l964” de Djalma Maranhão.



Por: Celso Álvarez Cáccamo
Tenho a sorte de não ter ido nunca à tropa. Jamais na minha vida toquei um fuzil nem pude superar a minha repugnância assombrosa pela cor dos uniformes. A única vez que matei alguma coisa eu tinha sete anos. Ia com um tio meu e um irmão maior; eu levava uma escopeta que errou sempre. O meu irmão matou dois tristes birulicos que logo nem comemos, e durante muitas horas depois senti uma espécie de oco na cabeça, como uma pergunta essencial, humana, libertária, sobre a inutilidade dessas mortes. A morte inútil de dois pássaros é o começo da barbárie.
O exército começa na violência inútil contra dois pássaros, na bofetada injusta de um pai em uma criança. O exército começa na ordem militar das famílias, no imperativo urgente dum homem que chega escravizado, e logo o exército cresce dentro de nós, como uma geometria inapelável, e estende-se ao domínio sexual, à violação, às discussões autoritárias, o exército estende-se ao trabalho onde reproduzimos uma hierarquia celestial, às aulas das universidades, às monarquias, a deus. E logo, quando já o exército contamina quotidianamente a alma e o cérebro, quando já assassinou a utopia com que nascemos e que algum dia havemos recobrar, então é singelo dar-lhe um uniforme, vesti-lo de verde, pôr-lhe um nome e um adjetivo, e acolhê-lo entre nós como se fosse natural e não uma trama dos poderosos e sua consciência para impedir a liberdade.
O exército não é só a instituição mais repugnante jamais criada no planeta: o exército é uma atitude, uma cultura, uma maneira de destruir as coisas. O grau de sofisticação dos instrumentos de destruição e morte é algo tão horrível que só nos pode levar a duvidar do sentido do universo. Há armas que estragam por dentro, deixando cavidades irreparáveis na epiderme. Há armas de metal pequeno que furam os caminhos harmônicos do corpo deixando ao sair rastros vermelhos e retalhos de carne. Há armas que estouram ao pisá-las, semeando órgãos sangrentos nas areias naturais. Há armas que matam lentamente: na sua agonia atômica o corpo perde a pele e os cabelos e acaba a vida entre vômitos vazios, impotentes. Há armas que matam muitos anos depois, de câncro e de cegueira. Há armas que deixam mapas queimados na pele, como macabras metáforas dos territórios ocupados: a Beira Oeste, a Faixa de Gaza, Irlanda. Há armas que asfixiam e armas que desmembram. E há armas que assassinam legalmente nas câmaras esterilizadas dos presídios, armas que eletrocutam com consenso, armas policiais que derrubam sujos ladrões urbanos na cumplicidade da noite, armam de álcool legitimado, armas de poderosas seringas, armas de palavras que insultam aos que falam ou escrevem diferente, armas anatômicas que violam meninas de dois anos, armas de tinta que assinam execuções e masculinas leis injustas.
Contra esta barbárie, contra este épico da morte, só nos cabe a insubmissão ativa. A insubmissão não é um ato político: é uma atitude, uma necessidade, uma aposta pela utopia que querem esmagar por lhes dar medo. Porque dá medo imaginar um lugar comum onde percamos a noção do ser e da história e onde sejamos apenas a extensão humana do azar, outra forma da matéria, cada um na sua carne e tocando a dos outros, no território sem poder que levará sempre a espécie humana à inteligência. A insubmissão é mais do que uma náusea por matar: é a necessária revolta contra esta epopéia de miséria. Poderão desaparecer as castas militares. Poderemos aprender a controlar-nos mutuamente, sem pistolas, no consenso. Poderemos fingir que chegamos já ao limite da igualdade. Mas, enquanto existirem os presídios, as favelas, os bairros crematórios, enquanto existir uma fronteira real, existirá o exército.

Máximo Gorki
"É necessário ter-se nascido numa sociedade civilizada para se ter a resignação de viver nela toda a vida sem nunca sentir o desejo de libertar-se dessa esfera de convenções fátuas, de venenosas mentiras consagradas pelo uso de ambições mesquinhas e partidarismos acanhados, de diversas formas de falta de sinceridade, em uma palavra, de toda a loucura da vaidade que gela o coração, corrompe a inteligência, e tão insensatamente se chama vida civilizada. Nascido e criado fora desta sociedade, impossível se me torna aceitar essa cultura em doses fortes, sem experimentar logo a necessidade imediata de fugir para muito longe das suas complicações e absurdos."
Gorki, escritor, romancista, dramaturgo e ativista político russo.




quinta-feira, 1 de maio de 2014


"Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer extrair o máximo do meu prazer e me fazer crer que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre."
Gabriel García Márquez


El Gabo, hoje o mundo ficou na maior solidão, terminou teu bolero, mas “não vamos chorar porque terminou”, temos certeza que tu esta em algum Olimpo ou em Abya Yala, tão feliz como nos tempos em que escreveste “O Amor em Tempos de Cólera”. Nós e todas as putas, além das tuas, ficamos tristes, mas somos felizes porque vivemos no teu realismo mágico, nesta América Latina na “Utopia da Esperança” de dias melhores.
Macondo, 17 de abril de 2014.

domingo, 6 de abril de 2014



ERA UMA VEZ...

Um menino
Que gostava de flâmulas
Gibis, bolas de gude
Peões, caixa de bugigangas
Tesouros, embaixo da cama.
Um menino
Que dançava rock
Para as primas olhar
Guaraná Frisante e lanchinho
Nos córregos pra pescar
Um menino
Levado, inventor, cowboy
Que não perdia matinê
Banho pelado nos açudes
Seriado de super-heróis
Um menino
Desbravador das florestas
Do fundo do quintal
Tarzan, super-homem
Capas de roupas do varal
Um menino
De imaginários inimigos
Espadas, pistolas de raios
Medo do escuro
Destemido diante do perigo
Um menino
Moleque, fora da linha
Mambembe, ator
Cunhado do amigo
Namorado da filha da vizinha
Ainda sou um menino
Nesta egocêntrica luta
Pária do vazio convencional
Que me fez poeta, chacal
Nesta pífia sociedade adulta.

Sempre sonhando, desde os tempos em que não sabia o que era imperialista, comunista, neoliberal, globalização e o escambau,  maravilhosa é a infância e a inocência.
Para a Neidi e a Neuzinha, as filhas da vizinha. 
Jaime Baghá.


Infância
Nunca achei interessante aquela conversa de que “no meu tempo é que era bom”. Acredito que todas as épocas em que as pessoas foram mais jovens sempre foram as melhores, com exceção de quem viveu num país em conflito ou teve uma infância muito pobre e sofrida, do contrário, todas as épocas são ótimas quando são crianças e jovens. Bem, sem querer apelar ou ser saudosista, a minha época teve algo especial, algo que não vejo hoje: a de ter muita arte e usá-la como forma de protesto,  acreditando muito nela para transformar o mundo, conforme eu relatei numa postagem neste blog  em 19/10/2010 com o título “O Despertar”, que foi a minha mudança de infantil para adolescente.
Agora, num momento de lembranças na solidão do meu pequeno cômodo onde leio, sonho, escrevo e escuto minhas músicas, lembrei-me da minha infância e faço um relato das brincadeiras de rua com os fatos principais do meu cotidiano  de menino. Lembro quando organizamos o primeiro time de futebol e a luta para comprar um jogo de camisetas. Fizemos vaquinhas, rifas e conseguimos comprar o fardamento, o nome do time foi Bonsucesso. A princípio eu fiquei na reserva, (nunca fui muito bom de bola), mas fiquei pouco tempo, logo o técnico passou e me jogou a camisa que coloquei com maior orgulho, entrei no campo olhando de soslaio para ver se meu pai estava me vendo, foi um momento extraordinário para um menino de 9 anos.
Uma boa brincadeira era jogar taco, neste eu era bom e preparava o meu taco sempre com uma madeira muito especial. O taco era lixado e minuciosamente preparado para bater na bolinha. Também era um bom jogador de peão (enrolava rápido a fieira), eu tinha uma caixa cheia com todos os modelos: os zunidores que giravam como se estivessem parados, sem tremer e faziam um barulho com a velocidade, zuniam; as batatinhas, peões pequenos e gorduchinhos, sem muito valor; e os tararacas que giravam pulando devido a um defeito na ponta.
Brincar de esconder (ou esconde-esconde) era sempre no fim da tarde e as meninas sempre participavam. Eu era também um exímio jogador de bolinha de gude. Uma vez meu pai comprou uma calça Far-West , um jeans azul grosso e forte que também chamavam de Brim Coringa (primeiro jeans brasileiro antes de chegar aqui a Levis). Assim poderia ajoelhar-me no chão de terra, sem rasgar as calças e melhor jogar as ganhas com a gurizada. Guardava as bolitas numa caixa em baixo da cama, separados os tipos de bolinhas: a joga ou a mais seca, que era a bolinha de melhor pontaria usada nos jogos; os pioquinhos, bolinhas pequena; os buzucão que eram as grandes e as águidas que era as coloridas. Ainda falando das bolinhas de gude, tinha também o aço, esfera de rolamento e o osso, feita de massa de vidraceiro, que a turma não aceitava para jogar as ganhas. 
O meu quartinho era enfeitado de flâmulas nas paredes, na cabeceira de minha cama, tinha um quadro com um anjo da guarda protegendo um menino de calças curtas e suspensório, vestimenta que eu usei até entrar no colégio. Ao lado da cama tinha um bidê com uma pilha de gibis: do Tarzan, do Cavaleiro Negro, do Capitão 7, do Fantasma, do Zorro, do Super-Homem, do Capitão Marvel, do Roy Rogers, do Gene Autry, e outros. Os gibis lidos eram trocados nas casas de meninos que também liam ou nas matinês de domingo. Na frente do cinema se reuniam muitos trocadores de gibis, sendo que algumas vezes terminava em pequenos desentendimentos por trocas feitas de maneira afoita e rápida (quando o filme já estava iniciando), sem dar uma olhada mais detalhada no interior do gibi e verificar folhas rasgadas ou que estavam faltando.
As histórias em quadrinhos me influenciaram a gostar de ler, ter senso crítico, estimulou a minha imaginação, a pegar gosto pelos livros e o hábito da leitura, que passei para minha família. Sempre junto um álbum de figurinhas do momento, com dois montinhos de figurinhas organizadas, um com as mais novas e difíceis para trocar e outro para jogar bafo. 
Em dias de vento se reuníamos para soltar pandorgas (pipa), que nos mesmos fabricávamos cada um com seu estilo, grandes e pequenas, coloridas, com roncador (franjas de papel coladas na pandorga). Eu adorava ficar segurando o fio, desafiando os ventos, ver a pandorga dançar, fazer manobras e olhar aquele colorido no longo fio que parecia colocar ela entre as nuvens.   
Com o passar dos tempos no começo da admissão para ir para o ginásio, mudamos nossos hábitos e o comportamento. Começamos a aceitar os convites das meninas para brincar de anéis na saída do colégio, uma brincadeira pueril e muito interessante, aonde aquele que acertava em qual mão estava o anel tinha como prêmio dar uma volta de mão dadas e ganhar ou dar um beijo da menina que escondia o anel. Ali se iniciava os primeiros namoros, as reuniões dançantes, o rock e um pouco da perda da inocência, uma ótima época para quem teve uma boa juventude.
Porém, inesquecível e maravilhosa foi a infância com suas descobertas, dos banhos pelados e pescarias nos rios que não eram poluídos, de brincar de mandrake, aonde o cara tinha que ficar paradinho feito estátua, até o outro pedir água (não valia muito castigo), das fogueiras de São João que a gurizada fazia e todas as famílias do bairro compareciam levando comidas típicas da época.
Uma época na qual ninguém andava armado, as professoras eram respeitadas, um vizinho podia chamar a nossa atenção como se fosse nosso pai e sem sombra de dúvida  éramos muito felizes. Às vezes eu fico  tentando achar encanto nesta gurizada que só olha o celular o dia todo em todos os lugares. Ficam ali, com olhos fixos, jogando, falando  ou comunicando via internet no seu telefone, andróide, aplicativos e tablets. Fico achando que eles deveriam ter um tipo de passatempo mais ativo menos alienado, mas para alguns, até tenho receio de falar, ficaram diferentes, mais invocados, intolerantes. Como disse Adélia Prado, vivemos numa época de desesperados, parece que o mau esta enraizado.  
Acho que estou ficando velho, careta e repetindo aqueles velhos da minha época que diziam: “no meu tempo é que era bom”. Bem, poderíamos não concordar com os velhos de nossa época, mas nós tínhamos um profundo respeito por eles. 
Jaime Baghá.



Na minha infância o céu a noite era como um quadro de Van Gogh

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Os Sonhadores - Banksy

DOWNLOAD

Cult ao estranho
Magro, esguio
Anorexo
Globalizado.
A tribo
Sem nexo
Era do momento
Da brevidade
Dos fragmentos.
“No” velho pop
Rebeldia
Protesto
Hip-Hop.
Dedo do meio
Fuck!
Punk
Roupas de trapo
Cabelo moicano
Do social o engano
Não conectado.
Só o nerd
Com site e email
Parado na festa rave
Psy trance, eletro, tecno
Flashbacks
Muito êxtase.
Eu observando
Vadiando
No pico
Bombando
Reggae e rock
No mar clássico
Fim de tarde
No mar do Rosa.

Jaime Baghá  –  Vadiando e olhando os personagens 
num fim de tarde na Praia do Rosa-SC.





América Latina (Calle 13)

Eu sou... Eu sou o que eu deixei
Sou aquilo que restou do que roubaram
Um povo escondido no topo
Minha pele é de couro, por isso aguenta qualquer tempo
Eu sou uma fábrica de fumo
Mão de obra camponesa, para o seu consumo
Frente fria no meio de verão
O Amor nos Tempos do Cólera, meu irmão!
Eu sou o sol que nasce e o dia que morre
Com os melhores entardeceres
Sou o desenvolvimento em carne viva
Um discurso político sem saliva
As mais belas faces que conheci
Sou a fotografia de um desaparecido
O sangue em suas veias
Sou um pedaço de terra que vale a pena
Uma cesta com feijão, eu sou Maradona contra a Inglaterra
Anotando-te dois gols
Sou o que sustenta minha bandeira
A espinha dorsal do planeta, é a minha cordilheira
Sou o que me ensinou meu pai
O que não quer sua pátria, não quer a sua mãe
Sou América Latina, um povo sem pernas, mas que caminha
Hey!

Coro
Toto La Momposina:

Você não pode comprar o vento
Você não pode comprar o sol
Você não pode comprar chuva
Você não pode comprar o calor

Maria Rita:

Você não pode comprar as nuvens
Você não pode comprar as cores
Você não pode comprar minha alegria
Você não pode comprar as minhas dores

Toto La Momposina:

Você não pode comprar o vento
Você não pode comprar o sol
Você não pode comprar chuva
Você não pode comprar o calor

Susana Baca:

Você não pode comprar as nuvens
Você não pode comprar as cores
Você não pode comprar minha alegria
Você não pode comprar as minhas dores

Calle 13

Tenho os lagos, tenho os rios
Eu tenho os meus dentes pra quando eu sorrio
A neve que maquia minhas montanhas
Eu tenho o sol que me secar e a chuva que me banha
Um deserto embriagado com cactos
Uma bebida de pulque para cantar com os coiotes
Tudo que eu preciso, eu tenho meus pulmões respirando azul claro
A altura que sufoca,
Sou os dentes na minha boca, mascando coca
O outono com suas folhas caídas
Os versos escritos sob as noites estreladas
Uma vinha repleta de uvas
Um canavial sob o sol em Cuba
Eu sou o mar do Caribe, que vigia as casinhas
Fazendo rituais de água benta
O vento que penteia meus cabelos
Sou, todos os santos pendurados em meu pescoço
O suco da minha luta não é artificial
Porque o abono de minha terra é natural

Coro
Toto La Momposina:

Você não pode comprar o vento
Você não pode comprar o sol
Você não pode comprar chuva
Você não pode comprar o calor

Susana Baca:

Você não pode comprar as nuvens
Você não pode comprar as cores
Você não pode comprar minha alegria
Você não pode comprar as minhas dores

Maria Rita:

Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha'legria
Não se pode comprar minhas dores

Você não pode comprar o sol...
Você não pode comprar chuva
(Vamos caminhando)
No riso e no amor
(Vamos caminhando)
No pranto e na dor
(Vamos desenhando o caminho)
No pode comprar a minha vida
(Vamos caminhando)
A terra não se vende

Trabalho árduo, porém com orgulho
Aqui se divide, o que é meu é seu
Este povo não se afoga com as marés
E se derruba, eu reconstruo
Tampouco pisco quando eu te vejo
Para que recordem do meu sobrenome
A Operação Condor invadindo meu ninho
Perdôo porém nunca esqueço
Hey!

Vamos caminhando
Aqui se respira luta
Vamos caminhando
Eu canto porque se ouve
Vamos desenhando o caminhando
(Vozes de um só coração)
Vamos caminhando
Aqui estamos de pé
Que viva a América!
Não podes comprar minha vida...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Nelson Rolihlahla Mandela

Mandela

Este homem negro nasceu numa aldeia e sofreu segregação racial, foi condenado a prisão perpétua, acusado de sabotagem, comunista, subversivo, rebelde, traidor fora da lei e ficou na cadeia durante 27 anos.  
Foi amigo de grandes líderes políticos, de personalidades, de artistas, de ditadores, de reis, de rainhas e  de princesas. Saiu nas manchetes dos jornais abraçado com Fidel Castro e não foi vilipendiado pelos conservadores de seu país.
Algumas vezes foi até incompreendido pelos seus seguidores, no entanto ganhou prêmios pelo mundo afora por suas posições e até um prêmio Nobel da Paz, foi presidente do seu país e a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu um dia em sua homenagem: “O Dia Nelson Mandela” 18 de julho. Mandela é considerado como um dos maiores líderes morais e políticos de nosso tempo.
Como seria ele se vivesse no Brasil? Principalmente na época da ditadura aos nossos dias? Como seria visto este líder pelos nossos "homens de bem", que discriminam e desrespeitam um líder que não esta de acordo com os seus padrões "burgueses", seus conservadorismos arcaicos e retrógrados que manipulam a mídia, as informações e até suas religiões para que o povo odeie os líderes que são voltados mais as causas sociais e humanas? Acho que não chegaria a ser um Lula, seria um 46664 ou morreria como um Amarildo.

Jaime Baghá – Descanse em paz Tata Madiba


"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, pode ser ensinado a amar."   
Nelson Mandela


INVICTUS

Sob o manto da noite que me cobre
Negro como as profundezas de um pólo a outro
Eu agradeço a todos os deuses
Por minha alma invencível.

Nas garras ferozes das circunstâncias
Não me encolhi, nem derramei o meu pranto
Golpeado pelo destino
Minha cabeça sangra, mas não se curva.

Longe deste lugar de ira e lágrimas
Só assoma o horror das sombras
Ainda assim, a ameaça dos anos me encontra
E me encontrarão para sempre, destemido

Pouco importa quão estreita seja a porta
Quão profusa em punições seja a lista
Sou senhor do meu destino
Sou o capitão de minha alma.

Poema de William Ernest Henley (1875), que Mandela lia na prisão.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Somos Nós

Vocês dizem que não entendem
Que barulho é esse que vem das ruas
Que não sabem que voz é essa
que caminha com pedras nas mãos
em busca de justiça, porque não dizer, vingança.


Dentro do castelo às custas da miséria humana
Alega não entender a fúria que nasce dos sem causas,
dos sem comidas e dos sem casas.
O capitão do mato dispara com seu chicote
A pólvora indigna dos tiranos
Que se escondem por trás da cortina do lacrimogêneo,
O CHICOTE ESTRALA, MAS ESSE POVO NÃO SE CALA..


Quem grita somos nós,
Os sem educação, os sem hospitais e sem segurança.
Somos nós, órfãos de pátria
Os filhos bastardos da nação.


Somos nós, os pretos, os pobres,
Os brancos indignados e os índios
Cansados do cachimbo da paz.
Essa voz que brada que atordoa seu sono
Vem dos calos das mãos, que vão cerrando os punhos
Até que a noite venha
E as canções de ninar vão se tornando hinos
Na boca suja dos revoltados.


Tenham medo sim,
Somos nós, os famintos,
Os que dormem nas calçadas frias,
Os escravos dos ônibus negreiros,
Os assalariados esmagados no trem,
Os que na tua opinião,
Não deviam ter nascido.


Teu medo faz sentido,
Em tua direção
Vai as mães dos filhos mortos
O pai dos filhos tortos
Te devolverem todos os crimes
Causados pelo descaso da sua consciência.


Quem marcha em tua direção?

Somos nós,
os brasileiros
Que nunca dormiram
E os que estão acordando agora.


Antes tarde do que nunca.

E para aqueles que acharam que era nunca,
agora é tarde.


Sérgio Vaz – poeta da periferia

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

DEPRESSO

Eu vejo seu mundo
Com olhos de poeta
Seus sonhos
Anseios
Que lhe afetam.

Conheço sua afasia
Seu medo
O olhar atrevido
A benevolência
O bandido
O tolo
O pueril
O ser de falsos amores
Sua pose cariátide
Seus temores
Suores
Tremores.

Eu vejo seu olhar
Perdido no nada
Taciturno
Alhures
Seu ópio
Seu cigarro
Seu salva-vidas de agarro.

Eu conto o teu nada
E sei que teu amor
Não sabe o amor
E olho teus olhos
De mágoas
De dor
Que você disfarça
Num sorriso
Um tanto sem graça.

Eu vejo teus fantasmas
Transparecer nos teus olhos
Lôbregos
Tristes
No caminhar cabisbaixo
Na vaidade de ornatos
Como se nada existe.

Eu vejo a expressão
De timidez e brandura
Frágil
Forte
Bacante
Misteriossa
Insegura.

Eu vejo teus dias
Fazer-se escassos
Das alegres euforias
Conheço os estágios
De risos
Loucuras
Pesadelos e sonhos
Liberdade
Clausura.

Enxergo o óbvio
Tua vida incerta
Mostro o oculto
O teu oculto
Porque sou poeta.

Sentada na porta...
Na soleira...
No fim do dia...
Ares de melancolia...
Artelhos...
Joelhos...
Debruçada...
E os olhos verdes...
Perdidos no nada...

Para você, em eternas melancolias.  

Jaime Baghá

A Caravana

Porque os maus sempre sobrevivem

Eles detêm novas armas e tecnologias a serviço da mentira e do horror! Impressionante, Brecht é sempre uma fonte inesgotável de falas que se mantém atuais, sempre dominando o tempo. Ele responde à pergunta cima: “Porque as forças do mal são mais fortes. As novas invenções caem sempre nas mãos deles e eles vão utilizá-las sempre das maneiras mais destrutivas”. E, agora, seja nos novos meios de comunicação, seja na internet, seja no Facebook.

Quando o ex-presidente estadunidense George Bush levantou o problema da existência de armas de destruição em massa no Iraque, esse não foi na verdade o argumento que ele usou para justificar a invasão do território iraquiano. Sabendo que não existia esse perigo, inexistência confirmada por El-Baradei, daí é que Bush teve a certeza que podia invadir o Iraque sem riscos, iniciando a guerra sem receios, destruindo cidades antiquíssimas, causando a matança de milhares, levando a população inocente a uma destruição que já dura uma década e que dia a dia tem novas vítimas, sem parar.
E isso feito em nome da “maior democracia do mundo” já virou uma grotesca piada.

Assumindo como potencia mundial o papel de defender a democracia em todos os países do planeta, espalhando esquadrilhas de aviões com bombas nucleares em todo o mundo, vigiando com olhos de condor os países onde há divisões internas, utilizando essas divisões para abrir brechas para a intervenção de suas tropas ou de mercenários, ultimamente passaram a usar grupos anônimos, provocando instabilidades até derrubar as verdadeiras democracias.

João Goulart não foi eleito democraticamente? Allende não foi eleito democraticamente? Trocados por generais sanguinários no Brasil em 1º de abril de 1964 e no Chile em 11 de setembro de 1973, plantando um horror como Pinochet. E um ultimo golpe, provocado por Washington no Egito – não foi um golpe brutal? Será que Mursi não foi o primeiro presidente eleito no Egito depois da Primavera Árabe? Será que ele não foi derrubado por um golpe? Será que o mais de 1 bilhão de dólares que os EUA enviam anualmente ao exército egípcio não foi dominante nessa situação?

O Grande Irmão domina a cada segundo seus vassalos, seja a Grã-Bretanha, Espanha, Portugal ou Itália, dando a ordem de não deixar voar sobre seus territórios o avião do presidente boliviano Evo Morales, quebrando da maneira mais brutal leis internacionais, utilizando os tribunais contra crimes internacionais em Haia, estabelecidos contra os inimigos das potencias mundiais. O presidente da antiga Iugoslávia, Milosevic, tinha todos os direitos morais e jurídicos de defender a Iugoslávia unida contra as provocações de minorias separatistas, mas o Ocidente deu a esses separatistas armas e no fim invadiu a Iugoslávia militarmente, no inicio com bombardeios, depois com exércitos da OTAN e dos Estados Unidos. Haia não teve possibilidade de provar as acusações porque Milosevic morreu na prisão.

Alguém fez a conta de quantas vítimas inocentes Washington causou nos últimos dez ou onze anos no Oriente Médio? E os EUA e seus cúmplices já foram condenados? Alguém levou esses criminosos de guerra ao banco dos réus em Haia? Foi estabelecido que os EUA vão sustentar Haia, mas Haia não pode julgar cidadãos americanos. O maior teatro de absurdo, que dá para assustar todo o mundo, é essa última notícia de que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode ser espionada pelos Estados Unidos. Essa notícia é que devia levar às ruas multidões enormes contra os Estados Unidos.

Passaram 49 anos desde que assistimos a um filme desses aqui no Brasil. Foi então que começou a intervenção da CIA, o primeiro passo que levou à Operação Condor. Quem são agora esses anônimos que estão intervindos de fora? De novo vamos estar despreparados para um evento desses? Contra quem a gente protesta nas ruas? Essa divisão interna não vai ser aproveitada pelos EUA de novo? Os países da America do Sul continuam sendo um quintal do Grande Irmão?

Os Estados Unidos não tem interesse em democracia. Quando entregaram o Iraque nas mãos dos xiitas, as mulheres que já tinham conquistado sob Saddam Hussein o direito de estudar e de exercer profissões, sendo iraquiana uma das maiores arquitetas do mundo, passaram a ser tolhidas. E ainda os xiitas iraquianos são os maiores aliados dos seus confrades iranianos. E nem interessa aos Estados Unidos o desenvolvimento das reformas agrárias no Brasil, e daí tem cúmplices no País, contra a reforma agrária e o Bolsa Família. Essas divisões internas que são criadas são ligadas a interesses de fora e são financiadas de fora; o vandalismo tem ligação com gente de fora. Continuaremos sendo ingênuos?

Gershon Knispel.


William S. Burroughs

Oração ao Dia de Ação de Graças

Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo. Dia de Ação de Graças, 28 de novembro de 1986.


Obrigado pelo peru e pelos Pombos Correios, destinados a serem cagados por saudáveis tripas americanas
Obrigado por um continente para se pilhar e se envenenar
Obrigado aos índios, por nos abastecerem com uma quantia módica de perigo e desafio
Obrigado pelas vastas manadas de bisões para se matar e se escalpelar, deixando as carcaças apodrecerem
Obrigado pela recompensas por lobos e coiotes
Obrigado pelo Sonho Americano, por tudo vulgarizar e falsificar até que as mentiras nuas resplandeçam
Obrigado à Ku Klux Klan, por tiras assassinos de negros acariciando as marcas na coronha...por mulheres decentes e carolas, beatas de igreja com suas faces amarradas, amargas e más
Obrigado por adesivos tipo “Mate um viado em nome de Cristo”
Obrigado pela AIDS criada em laboratório
Obrigado pela Lei Seca, e pela Guerra Contra as Drogas
Obrigado por um país que não deixa ninguém tomar conta de seus próprios assuntos
Obrigado por uma nação de dedos-duros, é....
Obrigado por todas as lindas lembranças, “tudo bem, maluco, pode ir mostrando os bracinhos! “... você sempre foi uma dor-de-cabeça e um pé no saco
Obrigado
Pela maior e última traição
Do maior e último dos sonhos humanos

Poema de William S. Burroughs. Do livro de 1989 “Tornado Alley”