domingo, 24 de agosto de 2014

MUROS 
Sem piedade e sem pudor, sem dó e sem cuidado
à minha volta espessos muros tão altos quem teceu?
E eis­‑me agora aqui na sorte a que fui dado,
em mais não penso: não me sai da ideia o que aconteceu.
Lá fora há tanto que fazer - tudo ruído!
E, se estes muros construíram, porque não dei por tal?
Não ouvi de pedreiro nem voz nem ruído
E sem saber fiquei fechado, sem vista e sem portal.
Konstantínos Kaváfis , poeta grego.
Ao vergonhoso Muro da Cisjordânia de segregação racial, construído pelo Estado de Israel.

Massacre em Gaza

Nada justifica o massacre de Israel contra os civis na Faixa de Gaza, punir o Hamas um grupo sem organização, sem estrutura com bombinhas de “traque” perto do poderio da superpotência militar de Israel é um fato, assassinar civis indiscriminadamente como velhos, mulheres crianças, destruir escolas, hospitais, mesquitas, transformar a cidade em escombros, “mandar Gaza de volta para a idade média”, como falou o vice-premier de Israel Eli Yishal é outro.

É Interessante Israel ter que castigar o povo por causa do Hamas? Foi o próprio serviço secreto de Israel, nos anos 80, que participou ativamente da sua criação. É, o Hamas foi criado graças aos serviços de inteligência de Israel para enfraquecer a OLP de Yasser Arafat. Ao chamar o Hamas de terrorista, a história nos mostra que foram os sionistas que começaram o terrorismo no conflito árabe-israelense, quem explodiu o Hotel King e suas 96 vítimas, quem colocava bombas em cafés, em ônibus, em mercados, em embaixadas estrangeiras em Roma contra os britânicos, quem fazia minagem em ambulâncias e cartas bombas tudo isso muito ativo da década de 30 a 50, e hoje muito mais aperfeiçoados e dos mais especializados do mundo.

O que Israel precisa é respeitar e cumprir a resolução 181 da ONU, que desocupe os territórios roubados dos Palestinos e liberte este povo do cativeiro, devolva aos palestinos as suas terras e casas aos quais foram expulsos como animais, e continuam sendo expulsos dia após dia, com Israel ampliando os números de “assentamentos” ilegais, pegue um mapa e compare de 1948 aos dias atuais, com a população árabe cada vez mais vivendo em guetos.

Os “Acordos de Paz de Oslo” estão mortos e enterrados debaixo dos assentamos e os pedaços que sobraram mantém os palestinos enjaulados numa humilhação totalmente contrarias as Convenções de Genebra que o governo de Israel viola desde 1967. O Tribunal Penal Internacional deve processar os líderes israelenses por crime de guerra e pelo sistema de “apartheid” que foi criado. O primeiro ministro Benjamin Netanyahu  não está nem um pouco interessado nas negociações de paz, ele usa a invasão das terras,  as construções nos assentamentos roubados e expropriados em grande escala para garantir a sobrevivência de seu  governo. É um ritmo criminoso e violento apoiado pelos Estados Unidos e partidos fascistas como o Bait Yehudi “Lar Judaico” de Naftalli Benett, totalmente contrário a um estado palestino e que jamais vão reconhecer este estado independente e as resoluções da ONU.

Tudo isso foi criado graças a uma limpeza étnica das populações árabes e o terrorismo do IRGUN. Este negócio de preceitos religiosos, (dizem que os criadores do estado de Israel eram ateus) de “povo escolhido”, terra prometida, indústria do Holocausto, tem até história de vingança contra palestinos por “crimes” cometidos por filisteus há dois mil anos, tem quem defenda isso para a usurpação. Gente igual ao falecido rabino Ovadia Yosef (tem muitos ainda em Israel e no mundo), louco e completamente demente e líder “espiritual”, (pior do que os radicais muçulmanos) de um partido com ministros no governo.  A maior parte da população aprova este crime e seus filhos cantam pelas ruas "There’s no school tomorrow, there’s no children left in Gaza! Oleh!" (não há nenhuma escola amanhã, não há crianças em Gaza), lembrando muito a juventude hitlerista na época do nazismo, uma vergonha criminosa. Se necessitar de mais jovens o “Hasbara” com sua “ta’amula”, propaganda do Israel apartheid busca gente no mundo todo, lamentável.

É a mesma balela da Declaração Balfour, a carta malandra de Arthur Balfour ao Barão de Rothschild, como alguém pode doar uma terra que não lhe pertence, pior ainda, que foi roubada de outro povo. E essa leviandade ajuda a elevar o horroroso discurso de raça superior, levando os judeus a se equiparar completamente com os seus algozes nazistas, hoje fazem com os palestinos aquilo que foi feito a eles pelos hitleristas.

A arrogância sionista genocida é racista e gananciosa, Israel é um invasor ilegítimo que tem as costas quentes por estar tão próximo dos americanos (um dos maiores culpados por esta situação) e seus colaboracionistas, mas estão muito longe de Deus.

Minha crítica não é conversa de antiimperialista, ou qualquer outro alienado, mas sim uma visão lógica da história compartilhada com amigos judeus e de intelectuais como Noam Chomski , Ilan Pappé, Uri Avnery, Sefi Rachlevski, Yuram Kaniuk (que diz que não quer ser mais judeu), e tantos outros. Nunca suportei ver bandidos travestidos de mocinhos e heróis, se você se cala pode ficar um dia como um personagem de Brecht árabe, vai ser um palestino magro, com cara de louco espiando pela fresta do muro, como falou um amigo.

Jaime Baghá



Ocuparam minha pátria

Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista

Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista

Legislaram leis fascistas
Praticaram odiado apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista

Assassinaram minhas alegrias,
Sequestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries

Eles... mataram um terrorista!

Mahmoud Darwish


Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei
Samih Al-Qassim, in Poesia Palestina de Combate

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ARIANO SUASSUNA
 Eu tenho uma admiração tão grande por Ariano Suassuna que não poderia deixar de comentar algo sobre este gigante. Referência da dramaturgia brasileira, figura que mais representa o teatro popular. A literatura de Ariano é um marco, é aquilo que o teatro regional e seus personagens brasileiros têm a dizer e ser o maior lutador pela cultura brasileira é o que o diferencia. Ouvi-lo falar era algo fantástico, aquela mistura de gênio crítico e bom humor era impagável, era muito mais que palestras muito mais do que aulas-espetáculo, porque ele prendia a atenção do público com suas histórias como um mágico. O amor pela cultura brasileira e o fazer artístico lhe transformou num personagem mítico da nossa própria cultura.
Eu particularmente acho que Ariano não morreu, acho que foi viver no mundo mágico dos seus personagens. Tenho certeza de que ele foi recebido pela Compadecida (Nossa Senhora), por Emanuel (O Cristo Negro), Dom Pedro Dinis Quaderna, o Palhaço, Chicó, João Grilo e até Severino (Gangaceiro) e o Encourado Diabo, entre Anjos carregando a “Pedra do Reino”, e todos seus personagens e outros que um dia também irão partir, como nós, o povo brasileiro. Ariano defendendo a cultura dizia: “não troco meu ‘oxente’ pelo ok de ninguém”, assim como nós no sul não trocamos o nosso “mas bah tche” também, necessitamos muito viver a nossa própria cultura e nisso Ariano foi o mestre.
Tem um texto de Matias Aires que Ariano leu para o público, a “Carta para Ariano” que Matheus Nachtergaele lhe enviou e um texto de Idelber Avelar sobre Chico Science que gosto muito e reproduzo para vocês.
 Jaime Baghá.

Ariano Suassuna leu para o público um texto de Matias Aires:
“Quem são os homens mais do que a aparência de teatro? A vaidade e a fortuna governam a farsa desta vida. Ninguém escolhe o seu papel, cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto nem cortejo e que logo no rosto indica que é sujeito à dor, à aflição, à miséria, esse é o que representa o papel de homem. A morte, que está de sentinela, em uma das mãos segura o relógio do tempo. Na outra, a foice fatal. E com esta, em um só golpe, certeiro e inevitável, dá fim à tragédia, fecha a cortina e desaparece”.


“Carta para Ariano,
Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém,  homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.
Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.
O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.
Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.
Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.
Teu,
Matheus Nachtergaele".


“Ariano Suassuna era um tradicionalista, reacionário no sentido estritamente etimológico da palavra (ou seja, propugnava mesmo que a saída era que se girasse para trás a roda da História) e combateu durante anos o mangue beat. Os amigos pernambucanos da minha geração se lembram: ele se recusava a dizer "Chico Science". Pra ele era "Chico Ciência". E acusava o mangue beat de desnacionalizar a música nordestina e tudo o mais.
Até que naquele fatídico 02 de fevereiro de 1997, Chico bateu o carro da irmã no caminho que ele fazia tantas vezes, entre o Recife e Olinda. Foi o domingo em que todas as nações do maracatu desfilaram em silêncio. E lá estava Ariano, carregando o caixão de Chico Science, chorando copiosamente, desesperado.
Essa imagem, de Ariano Suassuna chorando enlouquecido enquanto carregava o caixão do "Chico Ciência" que ele tanto havia combatido, é para mim uma das mais fortes da cultura brasileira. E é a imagem de Ariano que fica pra mim”.
Idelber Avelar

domingo, 20 de julho de 2014

José Saramago, escritor e poeta português

A CONFRARIA

Fiquei ali olhando o nada
Com vermes envolvidos em preces
Estranhos a minha espécie
Sublimando o que não me agrada

Fiquei ali, alhures, perdido
Entre fantasmas sociais
Como cipaios animais
Entre muitos, escondido.

Fiquei ali numa ficção
Olhando a xenofobia em ação
Na frialdade dos injustos

Que ventre produziu estranhos partos
De vermes obscuros e falsos
Como um soneto de Augusto.

 Olhando a conjunção política-religião da pequena província, lembrei-me de Augusto dos anjos.  
Jaime Baghá


Durante toda a minha vida as pessoas mais inteligentes que conheci não professavam doutrinas religiosas, e sempre demonstraram um caráter de bondade, segurança, sabedoria e justiça. Em muitos religiosos vi a cobiça, inveja, maldade e  ignorância. 

Vendo os anais da história sei que as piores guerras e as mais sangrentas foram em nome de Deus, e é em nome dele que as guerras ainda continuam, caso tivermos uma terceira guerra mundial, tudo nos leva a acreditar que será também em nome de Deus.

Desde as pequenas províncias interioranas até o maior escalão político do meu país eu vejo uma ascensão das bancadas religiosas, isto me causa o temor de uma teocracia, do fanatismo e dos desentendimentos sociais, desviando os caminhos de uma democracia.

Se existe um Deus onipotente, porque criou filhos desta natureza e porque filhos desta natureza criaram Deuses para roubar e matar? Independente do credo, toda a nossa sorte esta nas mãos dos homens e na sua cultura, abominando todas as formas de ignorância. Deus, se alguém acredita, que sirva só para consolar seus infernos interiores.

Sds. Jaime Baghá


Augusto dos Sanjos, poeta brasileiro

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!

 Augusto dos anjos.


VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 Augusto dos Anjos

domingo, 22 de junho de 2014

Jaime


ATITUDES

Uns falam!
Outros não sabem falar.
Uns calam!
Outros não querem calar.
Uns Pensam!
Outros não sabem pensar.
Uns pensam que sabem!
Outros querem monitorar.

Assim,
Uns e outros,
Ao seu jeito,
Castram!
Apontam defeito!
Criam à mordaça!
Mostram o desrespeito!

Mas se alguém!
Nenhum nem outro!
Mostra os opostos!
Nas políticas!
Tem livre expressão!
Teorias humanistas!
Contos e poesias?

Não governa!
Vira maldito,
Fica inviso.

Alguns cantam!
Outros vendem livros!
Uns ficam no desvio,
E morrem na sarjeta,
Como um cachorro vadio...

Os homens que eu vejo - Jaime Baghá


Operários - Tarsila do Amaral


IMPRESCINDÍVEIS E INÚTEIS

Os Homens com sensibilidade
não governam
alguns bradam
clamam e denunciam
são respeitados
morrem lutando
até ficam póstumos.

Outros se esvaem
como líquidos nos escoadouros
bêbados ou envenenados pela loucura
e buscam a dissolução.

Há os homens que amordaçam
Censuram, violam
destroem,  torturam
traem, vilipendiam
invadem e matam
geralmente são os que governam.

Os homens de Brecht e os demônios - Jaime Baghá .


A justiça no mundo


BERTHOLD BRECHT

"Que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?
os alimentos são mordidos pelo fisco averiguar se são bons (...)
Perdeu-se a batalha, mas os capacetes foram pagos (...)
Homens que não sabem nem abaixar as calças governam impérios".
 — Azdak - Juiz - O círculo de giz caucasiano – peça de Brecht

"Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há homens que lutam por um ano, e são melhores;
Há homens que lutam por vários anos, e são muito bons;
Há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis".

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence".

"Só acredite no que os seus olhos vêem e seus ouvidos escutam. Não acredite nem no que os seus olhos vêem e seus ouvidos escutam./ E saiba que não acreditar ainda é acreditar".

"Que continuemos a nos omitir da política é tudo que os malfeitores da vida pública querem".

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo". 

Brecht


domingo, 15 de junho de 2014



UM NOVO DISCURSO ECONÔMICO

Não sou economista e não entendo de economia, até acho chato um papo sobre o assunto, mas sou um bom observador do que acontece no mundo, e também um explorado pelo poder econômico. Estou sempre atento e sou um voraz leitor de política nacional e mundial, portanto, desde a crise de 2008 (e há muito tempo) venho observando com muita atenção como está o bem estar da humanidade, a desigualdade, a concentração de riquezas, o capitalismo financeiro cruel, com seus excessos e escândalos na distribuição das riquezas na mão de uma minoria com uma ganância imensurável, que ataca de todas as maneiras políticas, corruptas e desonestas para obter o lucro a qualquer custo. Se não houver controle fiscal, uma taxação sobre as grandes fortunas e heranças (a riqueza hereditária), caminharemos para o caos. 
Tomando conhecimento da recente publicação do livro “O Capital no século XXI” do professor na Escola de Economia de Paris Thomas Piketty, encontrei juntamente com a crítica racional de outros profissionais de renome na área, alguém que está dizendo que o rei está nu, sobre a disparidade econômica que os malandros de plantão nos impunham uma mordaça. 
Vejam o que fala Piketty: “Necessitamos de mais transparência democrática sobre as dinâmicas da riqueza, de modo que possamos ajustar as nossas instituições e políticas, ao que quer que seja que observemos”. Diz ainda que: “as tendências mais recentes sobre a desigualdade da riqueza é limitada, sobretudo em virtude do crescimento gigantesco em ativos financeiros transfronteiriços e na riqueza em paraísos fiscais”, e propõe uma política fiscal sobre a riqueza, informações, transparências, fontes de informações confiáveis sobre a dinâmica da riqueza. 
Diz para mim, caso você não seja é um especulador, não é exatamente isso que você pensa? Não precisa ser economista para ver toda a safadeza econômica do mundo, e veja bem, a publicação de Thomas Piketty não vem com um fundo político, sua tese foge da ortodoxia marxista, é acadêmico com números inegáveis, não é ideologia, é acadêmico puramente. 
Tem alguns comentários como do filósofo esloveno Slavoj Zizek, que elogia e chama de utópico, mas depois daquele fora sobre a Líbia e o Oriente Médio, não se pode confiar em tudo o que Zizek fala. Tem críticas evasivas de economistas das grandes corporações e publicações podres como da apócrifa e sem crédito revista Veja. Mas sem dúvida o livro é um best-seller, elogiado por especialistas, pelos maiores economistas do mundo e sacudiu o universo da economia mundial. 
Não vou me estender porque não sou um especialista, sou apenas mais um da classe trabalhadora roubado, que sofre com a especulação de banqueiros e executivos inescrupulosos que se tentava esconder debaixo do tapete (sob o controle da mídia), desviando qualquer assunto sobre as desigualdades sociais. Leiam melhores especialistas sobre esta questão e o próprio livro de Pickett. Afinal tu não sentes, mas há muito tempo tem gente colocando a mão no teu bolso, aquela mão invisível. 

Jaime Baghá.


quarta-feira, 28 de maio de 2014


Como eu conheci a ditadura
Eu não sabia o que estava acontecendo. Lembrava-me de outras inquietações, que mais tarde descobri: era Brizola, um dos maiores políticos deste país, defendendo com a Legalidade a democracia e a posse de Jango (João Goulart) na presidência do Brasil, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.
Em 1964, com 13 anos, outra situação de inquietação. Essa bem maior: era a Ditadura Militar no Brasil. Assim, quanto mais eu avançava na idade, mais eu tomava conhecimento dos fatos e mais assustadora ela era.
Quando entrei no Curso de Técnico Agrícola, do antigo “ginásio”, pude obter mais informações sobre o que se passava no país. Pois, tinha os alunos do final de curso, esses com mais de vinte anos e com uma visão mais ampla da situação. Dentre eles o presidente do Grêmio Estudantil, que tinha uma liderança muito forte, era o líder desta turma. Ele e alguns professores nos abriram a mente para os questionamentos políticos e as mazelas da ditadura. O contato com essas pessoas me deu conhecimento sobre o que estava acontecendo no Brasil, neste período comecei a entender as canções e as manifestações artístico-culturais com teor político, em cena na época.  Dei meu adeus a Jovem Guarda. “Alegria, Alegria”, só queria ouvir Chico, Caetano, Taiguara, Vandré e outros da MPB nos efervescentes festivais da canção.
De uma maneira pueril entendíamos que os militares eram os bandidos e os perseguidos os mocinhos, principalmente os estudantes das capitais com suas manifestações contra o regime. Com toda esta informação e vendo a truculência e a irracionalidade dos militares e seus órgãos repressores, eu e outros garotos só não entramos para nenhum grupo porque éramos muito jovens e não tínhamos conhecidos na subversão. Éramos mais pobres e nossa contestação se reduzia a um pequeno grupo de teatro amador do qual fazíamos parte.
Num belo dia, próximo das férias, chegaram os militares no colégio para falar sobre nosso alistamento, aquilo foi à gota d'água. Demos uma violenta vaia no tenente, dissemos que não queríamos servir o exército, não queríamos armas e nem matar estudantes. A situação tomou outro rumo, o tenente - um sujeito magrinho e de voz aguda - arregalou os olhos, deu uma violenta descompostura na turma e no meu caso especial por ser o metido.  Disse que ia me pegar, ameaçou outros da mesma maneira e foi novamente vaiado.
 O alistamento só não terminou em detenção porque éramos menores. Acho que deixamos a direção do colégio em maus lençóis, porque fomos chamados atenção pelo chefe de disciplina e o presidente do Grêmio Estudantil sumiu por um tempo. A situação ficou dramática. Não ganhei meu documento de reservista, a famosa terceira que dava dispensa de servir as forças armadas. Não pude jurar a bandeira (pois, se o tenente me visse estava ferrado), meu pai me enviou para umas férias na casa do meu avô João em Santa Catarina e contou-me que meu avô Chico (parte de mãe) era muito político, ele conseguiu o meu certificado de reservista com ajuda do Deputado Brusa Neto de Porto Alegre. Eu sempre lembrando o olhar furioso daquele tenente, ficava de olho nos lugares aonde ia, fiquei muito tempo me cuidando do tal militar.  Porém, muito provavelmente, aquele militar já tinha se esquecido de nós a muito tempo, não passávamos de meninos.
Em dezembro do ano em 1968, foi baixado o Ato Institucional nº. 5, o famoso AI-5 que definiu o momento mais duro do regime militar, dando poderes de punir arbitrariamente qualquer pessoa que fosse considerado inimigo do regime.  O próprio Deputado Brusa Neto, que me ajudou com o meu cerificado de reservista, foi cassado pelo AI-5.
Após a saída do colégio, eu nunca mais soube do Presidente do Grêmio Estudantil. Recentemente eu soube que ele morreu, e que ele foi político, prefeito de um município do interior do Rio Grande do Sul. Um grande sujeito que mostrou para mim, e creio que a muitos outros meninos, uma visão diferenciada sobre o que era a política.
Sem querer pensar apenas na ousadia de menino, meu momento contra a ditadura foi no “ano que não acabou” (1968), marcado na história do Brasil e do mundo como o grande momento da contestação da política e dos costumes, era “proibido proibir” e eu ainda não sabia disso. Sem saber eu estava com um pé na contracultura escutando os Mutantes e Caetano. Caetano que disse ao público “vocês não estão entendendo nada” e com razão. No ano seguinte já estava curtindo o Festival de Woodstock, o Festival Sul-Brasileiro da Canção em Porto Alegre e perambulando pelas ruas da cidade.
Bem mais tarde também descobri que a ditadura não foi só dos militares, alguns militares até foram contra, foi civil-militar porque contou ativamente com a participação de empresários. Estes mesmos civis fazem parte de uma burguesia entreguista “brasileira”, um câncer que vive hoje como neoliberais. Foram inspirados pelos “conselhos” dos norte americanos para criar entidades como a OBAN, IPES, IBADA, para auxiliar e financiar o golpe e a repressão.
Notei que muita gente queria o golpe, foram atrás de conversa de padres e políticos conservadores, até na família tive uns parentes babacas (todos tem alguns), que ficavam naquele altar de família, propriedade, e bons costumes. Depois se assustaram e passaram a fazer oposição à ditadura. Alguns dos seus filhos continuam idiotas até hoje, achando que se ficarem ricos vão ficar burgueses e inteligentes. Vivem da pecúnia e alguns de conveniência, achando que pobre é vagabundo. Esses são a “abominação política” como diz Marilena Chauí.
Eu me transformei num bom leitor, principalmente dos escritores marxistas. Aprendi que um não pode comer e o outro ficar olhando, entendi a ver melhor que a transformação da sociedade só poderá acontecer por meio de uma distribuição equilibrada das riquezas, das rendas e das propriedades, diminuindo a distância entre ricos e pobres.
Encontrei o pessoal da esquerda festiva (como dizia o safado do Lacerda) e nunca mais fui o mesmo. Se alguma coisa valeu na minha vida foi esta transformação, que me ensinou a gostar de poesias, artes, músicas de qualidade; de ter ótimos amigos, mais sensibilidade e de ser mais humano "demasiado humano" como dizia Nietszche.
Jaime Baghá

“Institucionalizou-se o terror cultural, numa revivescência dos ultrapassados tempos de Hitler. Universidades militarmente ocupadas e os coronéis da linha dura, inquisitorialmente, boçalmente, interrogando as expressões maiores da inteligência e da cultura do Brasil, apreendendo livros, dando buscas nas livrarias, confiscando como subversivos, Guerra e Paz de Tolstoi, Nosso Homem em Havana de Henry Greene, O Vermelho e o Negro de Stendhal. Esses interrogatórios e essas apreensões de livros, se não fossem as trágicas consequências das torturas, dariam um saboroso anedotário, uma antologia folclórica, um expressivo atestado de burrice.” 
Do texto “Memórias de l964” de Djalma Maranhão.



Por: Celso Álvarez Cáccamo
Tenho a sorte de não ter ido nunca à tropa. Jamais na minha vida toquei um fuzil nem pude superar a minha repugnância assombrosa pela cor dos uniformes. A única vez que matei alguma coisa eu tinha sete anos. Ia com um tio meu e um irmão maior; eu levava uma escopeta que errou sempre. O meu irmão matou dois tristes birulicos que logo nem comemos, e durante muitas horas depois senti uma espécie de oco na cabeça, como uma pergunta essencial, humana, libertária, sobre a inutilidade dessas mortes. A morte inútil de dois pássaros é o começo da barbárie.
O exército começa na violência inútil contra dois pássaros, na bofetada injusta de um pai em uma criança. O exército começa na ordem militar das famílias, no imperativo urgente dum homem que chega escravizado, e logo o exército cresce dentro de nós, como uma geometria inapelável, e estende-se ao domínio sexual, à violação, às discussões autoritárias, o exército estende-se ao trabalho onde reproduzimos uma hierarquia celestial, às aulas das universidades, às monarquias, a deus. E logo, quando já o exército contamina quotidianamente a alma e o cérebro, quando já assassinou a utopia com que nascemos e que algum dia havemos recobrar, então é singelo dar-lhe um uniforme, vesti-lo de verde, pôr-lhe um nome e um adjetivo, e acolhê-lo entre nós como se fosse natural e não uma trama dos poderosos e sua consciência para impedir a liberdade.
O exército não é só a instituição mais repugnante jamais criada no planeta: o exército é uma atitude, uma cultura, uma maneira de destruir as coisas. O grau de sofisticação dos instrumentos de destruição e morte é algo tão horrível que só nos pode levar a duvidar do sentido do universo. Há armas que estragam por dentro, deixando cavidades irreparáveis na epiderme. Há armas de metal pequeno que furam os caminhos harmônicos do corpo deixando ao sair rastros vermelhos e retalhos de carne. Há armas que estouram ao pisá-las, semeando órgãos sangrentos nas areias naturais. Há armas que matam lentamente: na sua agonia atômica o corpo perde a pele e os cabelos e acaba a vida entre vômitos vazios, impotentes. Há armas que matam muitos anos depois, de câncro e de cegueira. Há armas que deixam mapas queimados na pele, como macabras metáforas dos territórios ocupados: a Beira Oeste, a Faixa de Gaza, Irlanda. Há armas que asfixiam e armas que desmembram. E há armas que assassinam legalmente nas câmaras esterilizadas dos presídios, armas que eletrocutam com consenso, armas policiais que derrubam sujos ladrões urbanos na cumplicidade da noite, armam de álcool legitimado, armas de poderosas seringas, armas de palavras que insultam aos que falam ou escrevem diferente, armas anatômicas que violam meninas de dois anos, armas de tinta que assinam execuções e masculinas leis injustas.
Contra esta barbárie, contra este épico da morte, só nos cabe a insubmissão ativa. A insubmissão não é um ato político: é uma atitude, uma necessidade, uma aposta pela utopia que querem esmagar por lhes dar medo. Porque dá medo imaginar um lugar comum onde percamos a noção do ser e da história e onde sejamos apenas a extensão humana do azar, outra forma da matéria, cada um na sua carne e tocando a dos outros, no território sem poder que levará sempre a espécie humana à inteligência. A insubmissão é mais do que uma náusea por matar: é a necessária revolta contra esta epopéia de miséria. Poderão desaparecer as castas militares. Poderemos aprender a controlar-nos mutuamente, sem pistolas, no consenso. Poderemos fingir que chegamos já ao limite da igualdade. Mas, enquanto existirem os presídios, as favelas, os bairros crematórios, enquanto existir uma fronteira real, existirá o exército.

Máximo Gorki
"É necessário ter-se nascido numa sociedade civilizada para se ter a resignação de viver nela toda a vida sem nunca sentir o desejo de libertar-se dessa esfera de convenções fátuas, de venenosas mentiras consagradas pelo uso de ambições mesquinhas e partidarismos acanhados, de diversas formas de falta de sinceridade, em uma palavra, de toda a loucura da vaidade que gela o coração, corrompe a inteligência, e tão insensatamente se chama vida civilizada. Nascido e criado fora desta sociedade, impossível se me torna aceitar essa cultura em doses fortes, sem experimentar logo a necessidade imediata de fugir para muito longe das suas complicações e absurdos."
Gorki, escritor, romancista, dramaturgo e ativista político russo.




quinta-feira, 1 de maio de 2014


"Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer extrair o máximo do meu prazer e me fazer crer que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre."
Gabriel García Márquez


El Gabo, hoje o mundo ficou na maior solidão, terminou teu bolero, mas “não vamos chorar porque terminou”, temos certeza que tu esta em algum Olimpo ou em Abya Yala, tão feliz como nos tempos em que escreveste “O Amor em Tempos de Cólera”. Nós e todas as putas, além das tuas, ficamos tristes, mas somos felizes porque vivemos no teu realismo mágico, nesta América Latina na “Utopia da Esperança” de dias melhores.
Macondo, 17 de abril de 2014.

domingo, 6 de abril de 2014



ERA UMA VEZ...

Um menino
Que gostava de flâmulas
Gibis, bolas de gude
Peões, caixa de bugigangas
Tesouros, embaixo da cama.
Um menino
Que dançava rock
Para as primas olhar
Guaraná Frisante e lanchinho
Nos córregos pra pescar
Um menino
Levado, inventor, cowboy
Que não perdia matinê
Banho pelado nos açudes
Seriado de super-heróis
Um menino
Desbravador das florestas
Do fundo do quintal
Tarzan, super-homem
Capas de roupas do varal
Um menino
De imaginários inimigos
Espadas, pistolas de raios
Medo do escuro
Destemido diante do perigo
Um menino
Moleque, fora da linha
Mambembe, ator
Cunhado do amigo
Namorado da filha da vizinha
Ainda sou um menino
Nesta egocêntrica luta
Pária do vazio convencional
Que me fez poeta, chacal
Nesta pífia sociedade adulta.

Sempre sonhando, desde os tempos em que não sabia o que era imperialista, comunista, neoliberal, globalização e o escambau,  maravilhosa é a infância e a inocência.
Para a Neidi e a Neuzinha, as filhas da vizinha. 
Jaime Baghá.


Infância
Nunca achei interessante aquela conversa de que “no meu tempo é que era bom”. Acredito que todas as épocas em que as pessoas foram mais jovens sempre foram as melhores, com exceção de quem viveu num país em conflito ou teve uma infância muito pobre e sofrida, do contrário, todas as épocas são ótimas quando são crianças e jovens. Bem, sem querer apelar ou ser saudosista, a minha época teve algo especial, algo que não vejo hoje: a de ter muita arte e usá-la como forma de protesto,  acreditando muito nela para transformar o mundo, conforme eu relatei numa postagem neste blog  em 19/10/2010 com o título “O Despertar”, que foi a minha mudança de infantil para adolescente.
Agora, num momento de lembranças na solidão do meu pequeno cômodo onde leio, sonho, escrevo e escuto minhas músicas, lembrei-me da minha infância e faço um relato das brincadeiras de rua com os fatos principais do meu cotidiano  de menino. Lembro quando organizamos o primeiro time de futebol e a luta para comprar um jogo de camisetas. Fizemos vaquinhas, rifas e conseguimos comprar o fardamento, o nome do time foi Bonsucesso. A princípio eu fiquei na reserva, (nunca fui muito bom de bola), mas fiquei pouco tempo, logo o técnico passou e me jogou a camisa que coloquei com maior orgulho, entrei no campo olhando de soslaio para ver se meu pai estava me vendo, foi um momento extraordinário para um menino de 9 anos.
Uma boa brincadeira era jogar taco, neste eu era bom e preparava o meu taco sempre com uma madeira muito especial. O taco era lixado e minuciosamente preparado para bater na bolinha. Também era um bom jogador de peão (enrolava rápido a fieira), eu tinha uma caixa cheia com todos os modelos: os zunidores que giravam como se estivessem parados, sem tremer e faziam um barulho com a velocidade, zuniam; as batatinhas, peões pequenos e gorduchinhos, sem muito valor; e os tararacas que giravam pulando devido a um defeito na ponta.
Brincar de esconder (ou esconde-esconde) era sempre no fim da tarde e as meninas sempre participavam. Eu era também um exímio jogador de bolinha de gude. Uma vez meu pai comprou uma calça Far-West , um jeans azul grosso e forte que também chamavam de Brim Coringa (primeiro jeans brasileiro antes de chegar aqui a Levis). Assim poderia ajoelhar-me no chão de terra, sem rasgar as calças e melhor jogar as ganhas com a gurizada. Guardava as bolitas numa caixa em baixo da cama, separados os tipos de bolinhas: a joga ou a mais seca, que era a bolinha de melhor pontaria usada nos jogos; os pioquinhos, bolinhas pequena; os buzucão que eram as grandes e as águidas que era as coloridas. Ainda falando das bolinhas de gude, tinha também o aço, esfera de rolamento e o osso, feita de massa de vidraceiro, que a turma não aceitava para jogar as ganhas. 
O meu quartinho era enfeitado de flâmulas nas paredes, na cabeceira de minha cama, tinha um quadro com um anjo da guarda protegendo um menino de calças curtas e suspensório, vestimenta que eu usei até entrar no colégio. Ao lado da cama tinha um bidê com uma pilha de gibis: do Tarzan, do Cavaleiro Negro, do Capitão 7, do Fantasma, do Zorro, do Super-Homem, do Capitão Marvel, do Roy Rogers, do Gene Autry, e outros. Os gibis lidos eram trocados nas casas de meninos que também liam ou nas matinês de domingo. Na frente do cinema se reuniam muitos trocadores de gibis, sendo que algumas vezes terminava em pequenos desentendimentos por trocas feitas de maneira afoita e rápida (quando o filme já estava iniciando), sem dar uma olhada mais detalhada no interior do gibi e verificar folhas rasgadas ou que estavam faltando.
As histórias em quadrinhos me influenciaram a gostar de ler, ter senso crítico, estimulou a minha imaginação, a pegar gosto pelos livros e o hábito da leitura, que passei para minha família. Sempre junto um álbum de figurinhas do momento, com dois montinhos de figurinhas organizadas, um com as mais novas e difíceis para trocar e outro para jogar bafo. 
Em dias de vento se reuníamos para soltar pandorgas (pipa), que nos mesmos fabricávamos cada um com seu estilo, grandes e pequenas, coloridas, com roncador (franjas de papel coladas na pandorga). Eu adorava ficar segurando o fio, desafiando os ventos, ver a pandorga dançar, fazer manobras e olhar aquele colorido no longo fio que parecia colocar ela entre as nuvens.   
Com o passar dos tempos no começo da admissão para ir para o ginásio, mudamos nossos hábitos e o comportamento. Começamos a aceitar os convites das meninas para brincar de anéis na saída do colégio, uma brincadeira pueril e muito interessante, aonde aquele que acertava em qual mão estava o anel tinha como prêmio dar uma volta de mão dadas e ganhar ou dar um beijo da menina que escondia o anel. Ali se iniciava os primeiros namoros, as reuniões dançantes, o rock e um pouco da perda da inocência, uma ótima época para quem teve uma boa juventude.
Porém, inesquecível e maravilhosa foi a infância com suas descobertas, dos banhos pelados e pescarias nos rios que não eram poluídos, de brincar de mandrake, aonde o cara tinha que ficar paradinho feito estátua, até o outro pedir água (não valia muito castigo), das fogueiras de São João que a gurizada fazia e todas as famílias do bairro compareciam levando comidas típicas da época.
Uma época na qual ninguém andava armado, as professoras eram respeitadas, um vizinho podia chamar a nossa atenção como se fosse nosso pai e sem sombra de dúvida  éramos muito felizes. Às vezes eu fico  tentando achar encanto nesta gurizada que só olha o celular o dia todo em todos os lugares. Ficam ali, com olhos fixos, jogando, falando  ou comunicando via internet no seu telefone, andróide, aplicativos e tablets. Fico achando que eles deveriam ter um tipo de passatempo mais ativo menos alienado, mas para alguns, até tenho receio de falar, ficaram diferentes, mais invocados, intolerantes. Como disse Adélia Prado, vivemos numa época de desesperados, parece que o mau esta enraizado.  
Acho que estou ficando velho, careta e repetindo aqueles velhos da minha época que diziam: “no meu tempo é que era bom”. Bem, poderíamos não concordar com os velhos de nossa época, mas nós tínhamos um profundo respeito por eles. 
Jaime Baghá.



Na minha infância o céu a noite era como um quadro de Van Gogh