terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A GENIALIDADE DA LOUCURA

O que devemos denominar como loucura? Muita gente caracterizada como loucos os que acabaram em manicômios, em sarjetas e no mais completo abandono, deixaram-nos um legado artístico de notável poder criativo, mostrando que criatividade e doença mental sempre andaram muito próximas. A loucura para muitos foi, e ainda é, uma fonte de energia criativa, para muitos artistas é mais do que um colapso, era outro modo de raciocinar além do racional. Ao caracterizarem Edgar Alan Poe como louco, ele respondeu: “Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência”, e junto com Alan Poe temos uma lista muito grande de nomes célebres, alguns com graves transtornos psíquicos. Beethoven, John Nash, Ângelo de Lima Porto, Clarice Lispector, Jakob Michael Lenz, Clemens Brentano, Lord Byron, Tolstoi, Rachmaninov, Tchaikósvki, Robert Schumann, Camille Clauder, Virginia Woolf, Mary Shelley e tantos outros fazem parte desta lista. Ainda hoje temos constantes notícias de artistas com fixações estranhas, dependentes de álcool e drogas, numa loucura que atormenta suas mentes criativas. Amy Winehouse foi a perda mais recente, mas a lista é interminável e antiguíssima. Platão falara de uma “loucura divina” como base fundamental de toda criatividade, e o que dizem é que esta criatividade depende dos loucos, pois o homem sensato acolhe o mundo como ele é; apenas os loucos ousam mudar. Eu, Jaime Baghá, que também tenho um pé (ou a cabeça) na loucura, por amar demais toda esta arte e seus criadores e por achar que todo nosso progresso e processo criativo dependem deles, mostro seus personagens e seus devaneios lógicos. Mas, e a realidade? Ora, “o que me interessa a realidade se vivo dentro de um sonho”. Jaime Baghá.


“Ora, pois e que escarneça do escárnio a jubilosa loucura, quando súbito se apodera dos poetas em noite sagrada.” (Hölderlin)

“De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco.” (Michel Foucault)

“É preciso ter um caos dentro de si para dar a luz a uma estrela brilhante.” (Nietzsche)

“A loucura foi silenciada e encarcerada pela razão.” (Michel Foucault)

“Deixe-me por um instante, mergulhar na loucura dos sonhadores. Duvidar das regras que impõe o homem para não transgredir tudo aquilo que conhecemos. Não temo a aventura de viver em um mundo surrealista, porque meu espírito não conhece outra verdade, do que aquela que me leva além das fronteiras do impossível. No dia em que eu deixar de sonhar, mande-me flores brancas.” Texto atribuído a Salvador Dali

“Às vezes não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz.” William Faulkner, in “Na Minha Morte”.

“Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que veem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o status quo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo.” Jack Kerouac



Friedrich Wilhelm Nietzsche, 15.10.1844 – Weimar 25.08.1900. Iniciou seus estudos no semestre de 1864-1865 na Universidade de Bonn, em Filologia clássica e Teologia Evangélica. Transfere-se para Universidade de Leipzig. Durante seus estudos em Leipzig, a leitura de Schopenhauer (O Mundo como Vontade e Representação) vai construir a sua vocação filosófica. Nietzsche é um aluno brilhante, dotado de sólida formação clássica, aos 24 anos é nomeado professor de Filologia na universidade de Basileia, adotando nacionalidade suíça. Desenvolve durante dez anos a sua acuidade filosófica no contato com o pensamento grego antigo, tendo como predileto os Pré-socráticos, em especial para Heráclito e Empédocles.
Em 1889, começa a pirar. Saindo do seu quarto de pensão, vê um cocheiro açoitando seu cavalo. Precipita-se entre o animal e o açoite e perde os sentidos, ficando desmaiado dois dias. É internado, o diagnóstico é paralisia cerebral progressiva, causada pelo uso de drogas e tendo como agravante a sua saúde precária. Fica louco e esta crise de loucura durante anos até sua morte, coloca-o sob a tutela de sua mãe e sua irmã. Diz que é o sucessor do Deus morto e o bufão da eternidade. Escreveu cartas para muitas pessoas, assinando como Dionísio e o crucificado. Nietzsche sofria, não conseguindo tratamento adequado, tornara-se seu próprio médico. Tomava drogas como o ópio, haxixe (principalmente) e cloral.
Nietzsche se superou como pensador da cultura e artista. Sua influência na filosofia posterior é grande, como em Deleuze, Heidegger e Foucault. Depois da segunda guerra, houve uma retomada da interpretação de sua filosofia, em sua acepção original, não deturpada. Fez a crítica da modernidade e seu bravo peito desbravou os horizontes possíveis com o artifício da linguagem, não cedeu diante as adversidades em sua vida incomum. Influenciou também os existencialistas e os psicólogos. Além de músico, poeta filólogo e filósofo, foi um grande escritor. Suas obras têm um tom profundo e coeso, como em Platão.

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"
"Por que você se assusta? O que acontece para a árvore, acontece também para o homem. Quanto mais deseja elevar-se para as alturas e para a luz, mais vigorosamente enterra suas raízes para baixo, para o horrendo e profundo: para o mal".
“Os homens de convicção simplesmente não tecem considerações no que toca aos fundamentos do valor e desvalor. Convicções são prisões. (...) A grande paixão usa e volta a usar convicções, não se submete a elas...” Friedrich Nietzsche




Johann Christian Friedrich Hölderlin, Lauffen, Alemanha 02.03.1870 – 07.06.1843. Sintetizou na sua obra o espírito da Grécia antiga, os pontos de vista românticos sobre a natureza, poeta e romancista estando hoje entre os maiores poetas germânicos, admirado por Nietzsche, Heidegger, entre outros. Considerado um dos grandes poetas do ocidente e referência obrigatória para a filosofia da arte neste século. Holderlin, como lembra Antonio Cícero, “pensou o mundo enquanto poeta e pensou sobre o mundo enquanto filósofo”. Em 1805 sua insanidade é diagnosticada. Entretanto, essa caracterização de seu estado mental como loucura, é até hoje vista de forma incerta.
Então, em 1807 foi deixado aos cuidados de Ernst Zimmers, um carpinteiro que vivia em Tübingen e grande admirador da obra intitulada Hyperion. Sob o nome de "Scardanelli", Hölderlin escreveu ainda poemas, que contavam com grande estranhamento formal. Mesmo contando com alguns períodos de lucidez, não retornou mais ao convívio social. Durante os próximos 36 anos, permanecerá em um quarto em uma torre, às margens do rio Neckar, até 1843, ano de sua morte.

CANTO DO DESTINO DE HIPERÍON
No mole chão andais
Do éter, gênios eleitos!
Ares divinos
Roçam-vos leve
Como dedos de artista
As cordas sagradas.

Como adormecidas
Criancinhas, eles
Respiram. Floresce-lhes
Resguardado o espírito
Em casto botão;
E os olhos felizes
Contemplam em paz
A luz que não morre.

Mas, ai! Nosso destino
É não descansar.
Míseros os homens
Lá se vão levados
Ao longo dos anos
De hora em hora como
A água, de um penhasco
A outro impelida,
Lá somem levados
Ao desconhecido.

F.Holderlin

Tradução Manoel Bandeira



Antonin Artaud, 1896-1948, o existencialista do desespero, desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura. Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido).
Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.

"Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.




Gérard de Nerval nasceu Gérard Labrunie, em Paris, boêmio, escritor, foi uma das principais figuras do movimento romântico, simbolistas e surrealistas encontraram um ídolo em Nerval, que descreveu o seu estado de sonho como “supernaturalista”.
Conheceu o futuro poeta e crítico de literatura Théophile Gautier, eles tornaram-se amigos para a vida. Aos vinte anos de idade Nerval publica a tradução de J.W. Faust von Goethe (1828), que o autor alemão elogiou.
Nerval foi o homenageado original do poema de Baudelaire, "Un voyage à Cythère", que mais tarde integrou a obra Les Fleurs du mal. Baudelaire também compartilhou com Nerval uma paixão pela Orient e haxixe - que ambos frequentam nas reuniões do famoso "Club des Hachischins" e escreveu sobre a droga.
Desde o início de 1840 até à sua morte, Nerval sofreu de intermitentes ataques de loucura; o seu primeiro colapso mental deu-se em fevereiro de 1841.
A mais importante coleção de poemas de Nerval, Les Chimères, foi publicada juntamente com a coletânea de contos Les filles du feu, em 1854. O último trabalho, em parte autobiográfico, foi Aurélia (1855), escrito em prosa lúcida, mas alucinante. O narrador descobre o poder dos sonhos e a sua fé no amor é restabelecida após a sua descida para a loucura, o mundo além da razão.
Nerval cometeu suicídio aos quarenta e seis anos de idade. Em Aurélia, o seu testamento espiritual, Nerval disse: "Eu disse a mim mesmo: é a noite eterna sobre nós, e as trevas serão terríveis. O que vai acontecer quando eles todos percebem que não há mais sol?". O corpo de Nerval foi encontrado a 26 de janeiro 1855, pendurado num parapeito na Rue de la Vielle Lanterne, um dos seus lugares preferidos em Paris. Durante algumas décadas, Nerval caiu no esquecimento, até que o romancista e crítico de Rémy de Gourmont produziu uma nova edição dos seus trabalhos em 1905.

VERSOS DE OUTRO
Homem! Livre pensador! Serás o único que pensa
Neste mundo onde a vida cintila em cada ente?
De tuas forças tua liberdade dispõe naturalmente,
Mas teus conselhos todo o universo dispensa.
Honra na fera o espírito que fermenta…
Cada flor é uma alma em Natura nascente;
Um mistério de amor no metal reside dormente;
“Tudo é sensível!” E poderoso em teu ser se apresenta.
Receia, no muro cego, um olhar curioso:
À própria matéria encontra-se um verbo unido…
Não te sirvas dela para qualquer fim impiedoso!
Quase sempre no ser obscuro mora um Deus escondido.
E, como um olho novo coberto por suas pálpebras,
Um espírito puro medra sob a crosta das pedras!
Gérard de Nerval (Gérard Labrunie)




Dramaturgo sueco (22/1/1849-14/5/1912). Um dos criadores do teatro expressionista e o escritor mais importante da Suécia. Johan August Strindberg nasce em Estocolmo e é educado dentro do rigor puritano, que considera repressivo.
Sua primeira peça importante, Mestre Olof, de 1872, é um drama sobre a revolta contra as convenções sociais e todos os tipos de poder.
É reconhecido como escritor em 1879, com O Quarto Vermelho, primeiro romance naturalista da literatura sueca. As alucinações, visões e neuroses que tem no decorrer da vida não prejudicam sua criatividade, mas dificultam seus relacionamentos.
Casa-se e divorcia-se três vezes. Revela rancor contra as mulheres em várias peças, especialmente em O Pai (1887) e Senhorita Júlia (1899). Depois de 1883 vive em diversos países da Europa e se ocupa de experiências com alquimia e ciências ocultas. Volta à Suécia em 1897. Escreve de 1898 a 1904 as três partes da peça Para Damasco, precursora do teatro expressionista, que influencia inúmeros dramaturgos alemães. Morre de câncer, em Estocolmo.
http://www.algosobre.com.br/biografias/august-strindberg.html

INDRA *
Descemos à terra arenosa.
A palha dos campos ceifados cobriu nossos pés;
O pó das auto-estradas,
Fumaça das cidades,
Bafos de onça,
Fumos dos celeiros e das cozinhas,
Tudo suportamos.
Então, fugimos ao mar aberto,
Enchendo de ar nossos pulmões,
Batendo nossas asas,
Banhando nossos pés.
Indra, Senhor dos Céus,
Escutai-nos!
Ouvi nossos lamentos!
A terra está suja;
O mal é nossa vida;
O homem não pode ser salvo
Nem do bem nem do mal.
Vivem como podem,
Um dia de cada vez.
Filhos do pó, viajam por ele;
Nascidos do pó, ao pó retornam.
Receberam pés para se arrastarem,
Não asas para voar.
Cobrem-se ainda mais de pó –
Abraçando sua culpa
Ou a Tua?
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
Johan August Strindberg
* Indra é o deus das tempestades no hinduísmo, filho de Aditi com o sábio Kashyapa



Salvador Domenec Felip Jacint Dalí Domenech, 1º Marques de Dali de Púbol, importante pintor catalão, Figueres, na Catalunha, Espanha (11.05.1904 – 23.01.1989). Conhecido pelo seu trabalho surrealista, seus quadros chamavam a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, como nos sonhos, com excelente qualidade plástica.
Dalí foi influenciado pelos mestres da Renascença e foi um artista com grande talento e imaginação. Era conhecido por fazer coisas extravagantes para chamar a atenção, e que por vezes aborrecia aqueles que apreciavam a sua arte.

Em 1922, Dalí foi viver em Madri, onde estudou na Academia de Artes de San Fernando. Nessa época, ele já chamava a atenção nas ruas como um excêntrico, usando cabelo comprido, longos casacos, um grande laço no pescoço, calças até o joelho e meias altas. Foi amigo do poeta Federico Garcia Lorca e do cineasta Luis Buñuel.

Ao Lado da Morte Volutuosa - Salvador Dali



Espanha 1938



Crianças geopoliticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem-1943



Galatea de Esferas




Vincent Willem van Gogh, pintor pós-impressionista holandês, com influência profunda na arte do século XX, sofria de ataques frequentes de doenças mentais e ansiedade, cometeu suicídio aos 37 anos. Pouco reconhecido em vida, porém é considerado um dos maiores pintores da história. Seus quadros de cores vivas e de forte impacto emocional foi uma grande influência a arte modernista. Van Gogh entrou para a história como um herói romântico, um gênio torturado e incompreendido em seu tempo. Seus quadros, retratos, auto-retratos, paisagens e girassóis, estão entre os mais caros do mundo, “Retrato do Doutor Gachet” foi vendido por 82,5 milhões de dólares em 1990.

Dr.Paul Gachet-1890


Noite Estrelada Sobre o Rhone




Francisco José de Goya y Lucientes, conhecido como Francisco Goya, 30.03.1796 - 15.041828, foi o mais importante pintor espanhol na fase do romantismo, retratou vários temas em suas pinturas, paisagens, cenas mitológicas, religião, demônios, guerras, homens, mulheres, deuses, demônios e feiticeiros. Comédias, sátiras, tragédias e farsa eram recorrentes em suas obras, em maior destaque as pinturas a óleo, com cores vivas, transmitindo os sentimentos humanos como medo, sofrimento, angústia, felicidade, etc. Seus estilos impressionistas influenciaram pintores franceses do século XIX como Monet. Durante a última parte de sua vida, Goya cobriu as paredes de sua Quinta com as famosas pinturas negras, as últimas e mais misteriosas do seu gênio atormentado, um reflexo de sua saúde física e mental,

“O sono da razão produz monstros” Goya


La Maja Desnuda


O Três de Maio 1808




Edvard Munch, Loten, Noruega - 12.12.1863 – 23.01.1944 – Um dos precursores do expressionismo alemão, Foi influenciado por Coubert e Manet e em Paris recebeu reconhecida influência de Toulouse-Lautrec e Gauguin. Munch vivia doente, teve problemas de perdas na familia, sua mãe morreu quando ele era um menino, uma irmã tinha problemas mentais e outra morreu após casar. Toda a sua obra tinha a marca de suas obsessões, como rostos sem feições e figuras distorcidas, seus temas era a morte, melancolia, tristeza, solidão e o terror das forças da natureza. Seu quadro “O Grito” é considerado a sua obra máxima e um dos mais importantes do expressionismo, retrata o desespero e a angústia e foi inspirado nos seus próprios problemas e decepções com amigos e no amor. Munch tinha plena consciência do seu quadro maníaco-depressivo, porém não aceitava tratamentos, acreditava que pudesse extinguir o seu poder criativo, declarou que: “Prefiro continuar sofrendo desses males, porque são parte de mim e de minha arte”

O Grito (Skrik)


Madonna-Edvard Munch

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


URBANOS

Escuto o som dos teus passos
Sorrio como um ator
Não engano mais meus sentidos
Procuro personagens
Para o disfarce.

Minha alegoria é hipócrita
E minha chances ilusórias
Como você
Na névoa da noite
Como o amor que bate em minha porta.

Gosto do seu tique
De assoprar o cabelo
Que cobre teus olhos
Você na névoa
Na luz como chamas
Me faz verdadeiro.

Abro os braços na noite
Na conformidade com o real
E você me abraça
Mancha minha camisa
Da maquiagem carregada.

O batom vermelho
Tem suave sabor
Cinta liga, saia de franja
Um velho passa
Com olhar de soslaio
Reflexos da luz
No teu rosto lânguido.

Meu coração te ama
Você lascíva
Estranha
Somos iguais nos enganos
Te sinto outra vez
Depois te abandono.

Num beco qualquer da metrópole – Jaime Baghá

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012


Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o fato brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante injeções de água, um quarto responderá de modo pronto e entusiástico à hipnopédia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reações menos rápidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por não importa que manipulador ciente do seu ofício, pronto a consagrar a isso o tempo e os esforços necessários.

É a liberdade individual compatível com um alto grau de sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas sobreviver à subversão exercida do interior por especialistas hábeis na ciência e na arte de explorar a sugestibilidade dos indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada pela educação, para bem do próprio indivíduo ou para bem de uma sociedade democrática, a tendência inata a ser demasiado sugestionável? Até que ponto pode ser controlada pela lei a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de homens de negócios e de eclesiásticos, por políticos no e fora do poder?

A sugestibilidade Humana – Aldous Huxley





neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundiários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
auto-regelante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.


6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado


7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

Haroldo de Campos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011



ILUSÕES

Os Sonhos não mudam
Os sinos tocam
Badaladas de catedral
O som é falso
Irreal.

Os sinos estão parados
Os reais
A gravação chamou os fiéis
Você lê Baudelaire
Um infiel.

Os sinos falsos te despertam
Interrompem teus sonhos
Maculam a tua ressaca
Teu descanso domingueiro
O rebanho passa.

Famílias e solitários
Senhoras neuróticas
Homens ordinários
Papalvos e confrarias
Com roupas de domingo
Demônios e filhas de Maria.

Velhinhas que querem o céu
Senhores de ócio e negócio
Casais trocados ao léu
Bodegueiros e libidinosos
Homens de boa fé
Políticos e duvidosos.

Justificando os pecados
A falta de amor
Usuras, intrigas
Dissimulando a dor
A posse das raparigas
Como se estivessem no andor.

Obliquamente olham você
Com teus contos
Sempre de esguelha
A tua diferença
Sem ver a tua centelha
Tua vida repleta
Tua alma de poeta
Para alguns, vazia
Para outros, completa.

Os sinos tocam
Para o segundo ato
Gritos no púlpito
O pecado dos ratos
A maldita moral
O corpo repleto
A alma vazia.

O perdão
O purgatório
Como os sinos
Um engano ilusório.

Então!
Você olha distante
E não muda os sonhos.

Jaime – outono 2010. Na província onde no silêncio do interior o diabo brinca com os desejos, luxúrias, intrigas, políticas e usura.






http://www.movimentogotadagua.com.br/


"Eles vieram com uma bíblia e sua religião – roubaram nossa terra, esmagaram nosso espírito... e agora nos dizem que devemos ser agradecidos ao ‘senhor’ por sermos salvos".
Chefe Pontiac



"Desde que a humanidade entrou no período de civilização, tão longe quanto a memória alcança, o povo reza e paga. Ele reza por seus príncipes, por seus magistrados, por seus exploradores e parasitas. Ele reza, como Jesus Cristo, por seus carrascos. Ele reza até mesmo por aqueles que deveriam rezar por ele. E depois ele paga para aqueles por quem reza. Ele paga o governo, a justiça, a polícia, a igreja, a nobreza, a coroa, a renda, o proprietário. Ele paga por seus passos, para ir e vir, para comprar e vender, para beber, comer, respirar, aquecer-se ao sol, nascer e morrer. E implora-lhe o céu para dar-lhe, abençoando o seu trabalho, meios com que pagar cada vez mais. O povo nunca fez outra coisa senão rezar e pagar".
Pierre-Joseph Proudhon

sábado, 22 de outubro de 2011

"Os amiguinhos americanos" - Banski

A TERRA DAS OPORTUNIDADES

"Tudo o que vale a pena ser dito sobre o modo de viver americano posso colocar em trinta páginas. Topograficamente, o país é magnífico — e aterrador. Por que aterrador? Porque em nenhum outro lugar do mundo o divórcio entre homem e natureza é tão completo. Em nenhum lugar encontrei uma trama de vida tão sem graça e monótona como aqui na América. O tédio aqui atinge seu pico.

Estamos acostumados a pensar em nós mesmos como um povo emancipado. Dizemos que somos democráticos, amantes da liberdade, livres de preconceitos e ódio. Aqui é o cadinho, o sítio do grande experimento humano. Belas palavras, cheias de sentimento nobre e idealista. Na verdade, somos uma turba vulgar e opressiva cujas paixões são facilmente mobilizadas por demagogos, jornalistas, charlatães religiosos, agitadores e que tais. Chamar isto aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação? A terra da oportunidade transformou-se em terra do suor e do esforço sem sem sentido."
Henry Miller - "Pesdadelo Refrigerado"



" Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não restaria um palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele se torna um flagelo. Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo..."
Henry Miller - "Trópico de Câncer"


domingo, 9 de outubro de 2011



EXTREM IDADE

Ele caminha pela casa escura

por entre corredores e cômodos escuros.

No criado mudo

assim como ele na inibição psíquica

suas camisas desbotadas

penduradas como em ganchos num açougue.

Olha seu reflexo na água do bacio

vê sua face

um rosto velho na casa escura

no interregno do pouco para o miserável.

Não ousa sair para o dia na rua

quer ficar olhando o nada

vendo seus quadros

seus antiquários

seus livros

seus filmes europeus

seus hebdomadários anarquistas

nos sarcófagos de madeiras tristes

assim como a cariátide do antigo relógio

olhando o nada.

Assim como ele

indo ao nada

se cuidando prá nada

se poupando prá nada.

Seus caminhos estão parando

na soleira da janela

nas folhas secas que caíram

do seu ipê amarelo.

Seu caminhar esta parado

sentado a beira da cama

olhando o velho baú

abarrotado de reminiscências.

Sombrio pensa em sair

para a luz

para o dia

porém cada vez mais

procura os labirintos

escuros dos aposentos.

Perdeu o prazer dos caminhos

na analogia do poeta

“caminante, no ai camino”.

Breve não caminhará mais

só olhará o breu de sua breve existência

até a luz apagar-se na fresta de sua mente

para por fim esta estrada longa

de caminhos curtos.

Quando começou a caminhar

a pensar

a ver

seus caminhos acabaram

dentro dos corredores escuros

da velha casa...

Sozinho...


Jaime, antes de tomar o remédio – inverno 2011

Para o meu Lódi querido que procura caminhos.

domingo, 11 de setembro de 2011


TRANSGRESSÔR (O ser social)

Alguns só falam em negócios
Ou sobre putas
Ou sobre o ócio
Outros além disso
Falam da rima
Sobre a métrica
Metáforas e dialéticas.

Alguns são confrarias
Prato e bispote
Esbornias e faloforias
Outros tem
O DNA que envenena
Um maluco transgressôr
A maldição da eugenia

Tudo é a confusão
Do perfeito mundo imperfeito
Um diz sim
Outro diz não
O que resulta é a procura
Uns de só o viver
Outros de entender a loucura.

Para o meu eu arredio - Jaime




Como diz no seu vídeo a romancista Chimamanda Adichie (contadora de história e escritora Nigeriana): "O perigo de uma única história”. Ela nos fala como o poder é usado para impor uma única história como se fosse verdade, além da história de Chimamanda, nós próprios sofremos a muito tempo esta situação. Quem ouve apenas uma história de uma pessoa, de uma situação ou de um país, arrisca um desentendimento crítico e até põe em risco seu próprio futuro. Sempre ouço e escuto as diversas opiniões, os dois lados da história para tirar minhas conclusões, o lamentável é que somos constantemente bombardeados por um só tipo de história, principalmente a miopia cultural, perversa e gananciosa dos impérios e suas mídias. Sendo assim, “garimpo” as opiniões, porém é sempre muito difícil manifestá-las. Nosso povo ainda vive desconcertado, acha a ignorância maravilhosa, inclusive em relação a sua própria história. Hoje o que ainda chamam de "papo-cabeça” é a tentativa de diálogo dos pequenos e cada vez mais raros grupos, que fogem da mesma história que o poder e os grupos de interesses insistem em nos enfiar goela abaixo. Em menos de três décadas o chamado papo-cabeça do jovem esclarecido mudou para o cara com desejo de status social, a praga da “celebridade” (palavra infecta) que está na moda e espalha a ansiedade por países como o Brasil, onde a cultura é pobre e o emergente se sobressai, ignorante, mas com dinheiro, um perigo, pois além de sufocar a pessoa de conhecimento, marginaliza a sociedade. É a grande produção do capitalismo, fomentando e promovendo os instintos egoistas do ser humano. Faltando-nos, como falou Jose Saramago: “Pensar, precisamos do trabalho de pensar, parece-me que, sem idéias não vamos a parte nenhuma”. Jaime


ISLÃMOFOBIA

Porque não sofro de islãmofobia, porque não faço das mídias manipuladas o meu estilo de vida, tampouco o meu material de conhecimento, meu tempo de bater palmas para o mocinho John Wayne matador de índios foi aos 12 anos na matinê do Antigo Cine Danubio Azul da velha Cachoeirinha. Pouco tempo depois já andava sozinho pelas ruas de Porto Alegre, descobrindo como eram as tais verdades absolutas, e entendendo que nem tudo que vimos podemos acreditar. Mas isso eram outros tempos, agora temos a "disneyzação" do Prof. Alan Bryman, "vivemos a cultura de consumo" e como explica Jean Baudrillard no seu estudo da comunicação das mídias na sociedade e na cultura contemporânea, ou a “insatisfação do eu consigo mesmo” como diz o Sr. Bauman, onde pessoas desqualificam suas formas de vida e vivem um universo midiático e de consumo. O que falo a seguir sobre o Oriente Médio, é uma refutação de uma mídia perversa, minha visão garimpada com uma realidade que não seja aquela que os americanos e seus aliados (desde o Nakba dos anos 40), querem passar para nós. A Liga Árabe compreende 22 estados com rebeliões em quase todos, as coisas não são tão simples como pensam os ocidentais e muito menos para quem não tem conhecimento da sua política e sua cultura. Tem que se conhecer a sociologia e a antropologia Árabe (este o grande erro ocidental que tenta impor seu modelo), muitos do seu povo nem tem consciência de nação, nem povo, pensam apenas em termos de família, clã e religião como na Líbia, tudo isso com cisões religiosas, étnicas e tribais. Em muitos lugares o que tem a uni-los é um chefe e a consciência religiosa com a mão de ferro. Até uma intervenção militar internacional para proteger o povo é algo dificílimo (termina em guerra civil). Em meio à tantas diferenças é completamente odioso marginalizar e vilipendiar um povo com uma história tão antiga, que ao meu ver, temos muito mais pecados do que eles. Em nome de deus já matamos, saqueamos e caluniamos muito mais. Não vai ser por causa de grupos radicais que vamos generalizar um povo. Se assim fosse, eu não poderia gostar dos alemães por causa de Hitler, dos espanhóis por causa do Torquemada ou de Pizarro, dos Americanos por causa da Ku Klux Khan, de seu racismo e seus eugenistas. Confesso, tenho muito, mas muito mais temor destes impérios colonizadores e saqueadores do que o povo árabe. Quem tem nos sacaneado, roubado, torturado, criado ditaduras e toda a espécie de maldade são estes impérios. Quem foi que acabou com o Paraguai que era um o país mais promissor da América Latina com a malandragem da tríplice aliança? Quem foi que explorou toda a América Latina, financiando ditaduras e relegando povos a miséria, a violência e ao abandono? Quem levou e leva todas as nossas riquezas e sobretaxa as deles num protecionismo safado? Quem enche de missionário nossas florestas, roubando nossa biodiversidade, estrupando nossos índios e dizendo que a Amazonia é deles? Nunca ví um árabe aqui cometer tamanhas safadezas, os únicos árabes que conheço no Brasil, são ainda iguais aos antigos mascates , que no sul eram apelidados de "prestação"(décadas atrás). Traziam roupas baratas para vender em nossas portas e nossos pais pagavam como podíam. Nunca vi crimes, escândalos, ou qualquer outro delito de um árabe no Brasil, o Maluf é brasileiro, o doutor Roger Abdelmassih tambem é brasileiro e fugiu, protegido como Maluf pelo nossos brilhantes “homens” do “judiciário” brasileiro, o mesmo “judiciário” que inocentou o Naji Nahas (este não é brasileiro), que sacaneou a bolsa de valores com a cumplicidade dos nossos patriotas, os quais eu acho que são da mesma quadrilha do “judicário”. Temos uma colonia árabe muito grande no Brasil, e desde o descobrimento parece-me, que é o único povo que não temos nada a falar ou reclamar, até fizemos piadas sobre eles e até já contei para eles e nunca fui atacado, nem ameaçado com bombas (também nunca fui ameaçado pelo Irgun ou pelo Lehi). Mas dos americanos temos de sobra, e só não falamos mais porque sua mídia de fantasia nos ilude, até o Zé Carioca eles criaram para nos tapear, mas o que fazer, agora mesmo temos 50 mil, eu falei 50 mil ou mais brasileiros que foram ver o casamento do príncipe na Inglaterra. Pois é, o meu saudoso avô João dizia: que o mundo começou com sete bôbos, morreu um, ficou quinze, quando menino eu não compreendia a matemática, mas meu avô explicou, é que o número de bôbos se multiplica feito ratos. Assim sempre vamos ter alguém (ou um rato), abanando uma bandeirinha para o carrasco, esperando eles no aeroporto, mesmo que eles nos expulsem quando descemos no país deles, afinal nós somos os colonizados, por isso devemos odiar tudo o que eles odeiam, até dos personagens de desenho do Aladim, afinal os Árabes são vilipendiado 24 horas pelos filmes de Hollywood. E confesso, meu medo maior é do Tea Party, do Bush ou do republicano Peter King. sds. Jaime







Vejam abaixo, a melhor análise que li sobre a revolta do mundo árabe, publicada na revista Piauí em junho de 2011 por Perry Anderson, que é historiador inglês e professor na Universidade da Califórnia.

Explosões em sequência
A liberdade precisa ser reconectada com a igualdade. Sem essa conexão, as rebeliões no mundo árabe podem facilmente murchar numa versão parlamentar da velha ordem, incapaz de responder à energia e às tensões sociais explosivas que lhes deram origem.


Por Perry Anderson

A revolta árabe de 2011 pertence a uma classe rara de acontecimentos históricos: a da concatenação de levantes políticos, um deflagrando o outro em toda uma região do mundo. Houve apenas três precedentes: as guerras de libertação das colônias hispano-americanas de 1810–25; as revoluções européias de 1848–49; e a queda dos regimes no bloco soviético em 1989–91. Cada um deles foi historicamente específico de seu tempo e lugar, tal como serão as explosões em cadeia no mundo árabe. Desde que se acendeu o fósforo na Tunísia, em dezembro de 2010, e as chamas se espalharam para o Egito, Bahrein, Iêmen, Líbia, Omã, Jordânia e Síria, não se passaram mais de três meses; qualquer previsão sobre os resultados é prematura.
Na lista dos levantes antigos, nenhum durou menos de dois anos. O mais radical acabou em completa derrota, por volta de 1852. Outros dois triunfaram, embora os frutos da vitória tenham sido muitas vezes amargos: bem diversos das esperanças de um Simón Bolívar ou de uma Bärbel Bohley. O destino final da revolta árabe pode ser parecido com qualquer um deles, mas também pode ser sui generis.
Dois aspectos fizeram com que o Oriente Médio e o norte da África ocupassem uma situação à parte no universo político contemporâneo. O primeiro é a duração e a intensidade do domínio ocidental da região, durante todo o século passado. Do Marrocos ao Egito, o controle colonial do norte da África repartiu-se entre a França, a Inglaterra e a Itália antes da Primeira Guerra Mundial, enquanto o Golfo virou uma série de protetorados britânicos, com Áden constituindo um posto extremo da Índia britânica. No pós-guerra, no último vagão do butim territorial europeu, os despojos do Império Otomano ficaram com a Inglaterra e a França, formando o que foi denominado, nas suas pranchetas e esquadros, Iraque, Síria, Líbano, Palestina e Transjordânia.
A colonização formal demorou a chegar a boa parte do mundo árabe. A África Subsaariana, o Sudeste da Ásia, o subcontinente indiano, para não falar da América Latina, foram conquistados muito antes que a Mesopotâmia ou o Levante. Diferentemente de qualquer dessas zonas, porém, no mundo árabe a descolonização formal foi acompanhada por uma sequência praticamente ininterrupta de guerras e intervenções imperiais no período pós-colonial.
As intervenções começaram cedo, com a expedição inglesa para reinstalar um regente fantoche, em 1941, e se multiplicaram com a edificação de um estado sionista sobre o túmulo da revolta palestina, esmagada pela Inglaterra em 1938–39. Daí em diante, um poder colonial em expansão, atuando às vezes como sócio, às vezes por procuração, mas com frequência crescente como iniciador de agressões regionais, combinou-se com a afirmação dos Estados Unidos como o senhor do mundo árabe, no lugar da França e da Inglaterra.
Desde a Segunda Guerra Mundial, cada década tem tido sua colheita de violência, seja por meio de suserania, seja através da ocupação. Nos anos 40, houve a nakba desencadeada por Israel na Palestina. Nos anos 50, o ataque anglo-franco-israelense ao Egito e os desembarques americanos no Líbano. Nos 60, a Guerra dos Seis Dias de Israel contra o Egito, a Síria e a Jordânia. Nos anos 70, a Guerra do Yom Kippur. Nos 80, a invasão israelense do Líbano e o esmagamento da Intifada palestina. Nos anos 90, a Guerra do Golfo. Na última década, a invasão e ocupação americana do Iraque. Na atual, o bombardeio da Líbia pela Otan, agora em 2011.
Nem todo ato de beligerância nasceu em Washington, Londres, Paris ou Tel-Aviv. Conflitos militares de origem local também foram comuns: a guerra civil no Iêmen, nos anos 60, a tomada do Saara ocidental pelo Marrocos, nos 70, o ataque ao Irã pelo Iraque, nos 80, e a invasão do Kuwait pelo Iraque, nos 90. Mas a conivência, ou envolvimento ocidental, raramente esteve ausente. Pouca coisa andou na região sem o atento olho imperial e – quando necessário – sem a aplicação de força ou dinheiro.
O motivo para o grau excepcional de vigilância e interferência euro-americana no mundo árabe é simples. Por um lado, ele é o repositório da maior concentração de reservas de petróleo da Terra, vitais para as economias do Ocidente. Essa condição gerou um vasto arco de desdobramentos, desde bases aéreas, navais e de espionagem em todo o Golfo, com um braço avançado no Iraque, até a profunda infiltração dos órgãos de segurança egípcios, jordanianos, iemenitas e marroquinos.
Por outro lado, o mundo árabe é a moldura na qual se insere Israel, que precisa ser protegido porque os Estados Unidos abrigam o lobby sionista, enraizado na comunidade imigrante mais poderosa do país – que nenhum presidente ou partido ousa afrontar –, e a Europa purga a culpa pela Shoah. Como Israel, por sua vez, ainda é uma potência ocupante que depende do auxílio ocidental, e os seus patrocinadores viraram alvo da retaliação de grupos islâmicos (que praticam o terror tal qual o Irgun e o Lehi no seu tempo), o controle da região tornou-se cada vez mais estrito. Nenhuma região do mundo tem merecido o mesmo grau de atenção da hegemonia imperial.
O segundo aspecto distintivo tem sido a longevidade e a intensidade das variadas tiranias que, desde a descolonização formal, rapinam o mundo árabe. Nos últimos trinta anos, regimes democráticos, na forma entendida pela organização Freedom House, espalharam-se da América Latina à África Subsaariana e ao Sudeste da Ásia. No Oriente Médio e no norte da África, porém, não ocorreu nada análogo. Ali, déspotas de toda catadura têm se mantido no poder, independentemente das mudanças de tempo ou circunstância.
A família Al Saud – no melhor sentido siciliano do termo –, que tem sido o instrumento central do poder americano na região desde o seu acordo com Roosevelt, manda na península, sem contestação, há quase um século. Os xeques amestrados do Golfo e de Omã, sustentados ou instalados pelo Raj, o sistema inglês na Índia, têm tanta necessidade de ouvir a opinião de seus súditos quanto os seus vizinhos wahabitas, colaboradores de Washington. As dinastias da Jordânia e do Marrocos – a primeira, criatura dos ingleses; a segunda, herança do colonialismo francês – passam o poder a seus herdeiros há três gerações de autocratas, junto com uma fachada parlamentarista. Tortura e assassinato são a rotina desses regimes, os melhores amigos do Ocidente na região.
Tampouco foi diferente nas chamadas repúblicas, cada qual uma ditadura tão brutal quanto a outra, e muitas delas não menos dinásticas que as próprias monarquias. Também nelas a longevidade coletiva dos governantes não teve paralelo em lugar nenhum: Kadafi no poder por 41 anos; Assad, pai e filho, 40; Saleh, 32; Mubarak, 29; Ben Ali, 23. Somente os militares argelinos, numa presidência rotativa à moda dos generais brasileiros, fugiram dessa norma, mas respeitaram todos os demais princípios de opressão.
Na postura externa, esses regimes foram menos uniformemente subservientes ao imperialismo hegemônico. A ditadura egípcia, salva de uma debacle militar, em 1973, graças aos Estados Unidos, foi desde então um fiel peão de Washington, tendo menos independência operacional em relação aos americanos do que o reino saudita. O governante iemenita foi comprado numa pechincha para atuar na “guerra contra o terror”. O tunisiano cultivou patrões na Europa, sobretudo na França, mas não só nela.
Os regimes argelino e líbio, gozando da alta renda proporcionada pelos recursos naturais, tiveram uma margem maior de autonomia, embora demonstrando um padrão crescente de obediência – exigida na variante argelina para conseguir a aprovação ocidental ao esmagamento da oposição islâmica, e na variante líbia para expiar seu passado e fazer lucrativos investimentos na Itália.
A exceção significativa foi a Síria, que não poderia se submeter sem a retomada das Colinas de Golan – bloqueada por Israel – e receosa em deixar o mosaico fóssil do Líbano cair totalmente nas mãos do dinheiro saudita e da espionagem ocidental. Mas até mesmo essa exceção foi intimada, sem maiores dificuldades, a cerrar fileiras na Operação Tempestade no Deserto.
As duas vigas mestras da região – a dominação contínua pelo sistema imperial americano e a ausência contínua de instituições democráticas – estão conectadas. A conexão não é uma simples derivação. Onde a democracia é considerada uma ameaça ao capital, os Estados Unidos e seus aliados nunca hesitaram em removê-la, como ilustra o destino de Mossadegh, de Arbenz, de Allende ou, atualmente, de Jean-Bertrand Aristide. No sentido inverso, onde a autocracia é essencial, ela é bem preservada.
Os despotismos da Arábia, baseados em cambalachos tribais e no trabalho suado de imigrantes, são engrenagens estratégicas da Pax Americana, nas quais o Pentágono intervém de supetão quando é necessário protegê-las. As ditaduras republicanas, ou monárquicas, que pairam sobre grandes populações urbanas noutros pontos da região, são expedientes um pouco diferentes, mais de ordem tática. Essas tiranias têm sido auxiliadas e apoiadas pelos Estados Unidos, mas não foram uma criação americana exclusiva. Todas têm raízes nas sociedades locais, ainda que sejam bem regadas por Washington.
Segundo o famoso dito de Lênin, a república democrática é a casca ideal para o capitalismo. A partir de 1945, nenhum estrategista ocidental discordou da afirmação. O imperium euro-americano preferiria, em princípio, lidar com democratas árabes a tratar com ditadores, desde que fossem igualmente respeitosos da sua hegemonia. A partir da década de 80, tal respeito raramente faltou nas regiões recém-democratizadas.
Por que o mesmo processo não se aplica ao Oriente Médio e ao norte da África? Essencialmente, porque os Estados Unidos e seus aliados têm motivos para recear que, devido a sua longa história de violência imperial na área e às permanentes demandas de Israel, o sentimento popular possa não lhes apresentar um reconforto eleitoral semelhante ao de outras regiões.
Uma coisa é construir um regime cliente à força de baionetas, e pastorear votos suficientes para sustentá-lo, como foi feito no Iraque. Outra coisa são eleições mais livres, como descobriram os generais da Argélia e os chefes da Fatah. Em ambos os casos, confrontados com a vitória democrática de forças islâmicas consideradas pouco sensíveis a pressões ocidentais, a Europa e os Estados Unidos aplaudiram a anulação das eleições e a repressão dos vencedores. As lógicas imperial e ditatorial continuam entrelaçadas.
Esse é o quadro no qual a revolta árabe finalmente irrompeu, numa concatenação facilitada pelos dois grandes fatores de unidade da região: a língua e a religião. O mote dos levantes foram as demonstrações em massa de cidadãos desarmados, que em quase toda parte enfrentaram com coragem exemplar a repressão a gás, água e chumbo.
De país em país, a reivindicação principal ecoou num grito estrondoso: Al-Sha’b yurid isquat al-nizam – “O povo quer o fim do regime!” O que as multidões nas praças e ruas querem, essencialmente, é liberdade política. A democracia, uma palavra bem conhecida – todos os regimes a utilizam amplamente –, mas uma realidade desconhecida, virou o denominador comum dos vários movimentos nacionais.
Raramente articulado a um conjunto de instituições, o poder de atração da reivindicação de democracia surgiu mais como uma negação do status quo – por ser tudo que a ditadura não é – do que da afirmação do seu conteúdo. Punir a corrupção nos altos escalões do velho regime aparece com mais destaque do que as particularidades da Constituição a ser feita. Nem por isso a dinâmica dos levantes ficou menos clara. Seu objetivo é, no mais clássico dos sentidos, puramente político: liberdade.
Mas por que agora? O elenco odioso de regimes permaneceu inalterado por décadas. A deflagração das revoltas não se explica pelos seus objetivos. Nem pode ser atribuída apenas a novos canais de comunicação: a difusão da Al Jazira, os aparecimentos do Facebook ou do Twitter facilitaram, mas não criaram o novo espírito de insurgência.
A fagulha que iniciou o incêndio sugere a resposta. Tudo começou com a morte, provocada pelo desespero, de um vendedor de verduras empobrecido num vilarejo no interior da Tunísia. Na raiz da comoção que sacode o mundo árabe havia pressões sociais vulcânicas: desigualdade social, aumento do custo dos alimentos, falta de moradia, ausência de emprego para a juventude instruída – e não instruída – numa pirâmide demográfica sem paralelo no mundo. Em poucas regiões a crise social é tão aguda, e tão evidente é a ausência de um modelo de desenvolvimento capaz de integrar as novas gerações.
Até agora, no entanto, há um desencontro quase total entre o conteúdo social da revolta árabe e os seus objetivos políticos. Em parte, isso é reflexo da composição dos principais participantes. Nas grandes cidades – à exceção de Manama, a capital do Bahrein – não foram os pobres que, em geral, acorreram às ruas majoritariamente. Os trabalhadores não organizaram uma longa greve geral. Os camponeses estão quase ausentes.
É esse o efeito de décadas de repressão policial, e da eliminação de qualquer organização coletiva dos desfavorecidos. O seu ressurgimento levará tempo. Mas o desencontro é também efeito do limbo ideológico em que a sociedade foi deixada nessas mesmas décadas – um período de descrédito do socialismo e do nacionalismo árabes e de neutralização do confessionalismo radical, que deixou um islamismo aguado como único passe-partout. Nessas condições criadas pela ditadura, o vocabulário da revolta só se pode concentrar na ditadura – na queda da ditadura – como discurso político, e em nada mais.
A liberdade precisa ser reconectada com a igualdade. Sem essa conexão, as rebeliões podem facilmente murchar numa versão parlamentar da velha ordem, tão incapaz de responder à energia e às tensões sociais explosivas quanto as oligarquias decadentes do período de entreguerras. A prioridade estratégica para a reemergência da esquerda no mundo árabe deve ser a luta pelas formas de liberdade política que permitirão que essas pressões sociais encontrem a expressão coletiva adequada.
Isso significa, por um lado: a abolição geral de toda a legislação de emergência; a dissolução do partido dirigente ou a deposição da família governante; a limpeza do aparelho do Estado de todos os ornamentos do antigo regime; o julgamento dos seus líderes.
E significa, por outro lado, depois de varrer os restos do antigo regime, prestar uma atenção cuidadosa e criativa aos detalhes das Constituições a serem escritas. Nesse ponto, as exigências-chave são: liberdade total de expressão e organização cívica e sindical; sistemas eleitorais sem distorção – ou seja, proporcionais, e não do tipo em que só o mais votado se elege; presidentes sem plenos poderes; proibição do monopólio, estatal ou privado, dos meios de comunicação; e o acesso, garantido em lei, dos desfavorecidos aos benefícios públicos.
Somente assim as reivindicações de justiça social que deflagraram a revolta podem dar origem à liberdade coletiva necessária para a sua conquista.
Outra ausência se faz notar no levante. Na mais famosa das revoltas concatenadas, a europeia de 1848–49, não só dois, mas três tipos de exigências se entrelaçaram: políticas, sociais e nacionais. O que dizer da última, a árabe, de 2011? Até o momento, os movimentos de massa não produziram uma só demonstração antiamericana, ou sequer anti-israelense. O descrédito histórico do nacionalismo árabe, com o fracasso do nasserismo no Egito, é, sem dúvida, uma razão para isso. Outra razão é o fato de que a subsequente resistência ao imperialismo americano foi identificada com regimes – Síria, Irã, Líbia – tão repressivos quanto os que se entenderam com ele. Ainda assim, é notável que o anti-imperialismo seja o cachorro que não latiu – ou não latiu até agora –no pedaço do mundo onde o poder imperial é mais visível. Isso pode continuar?
Os Estados Unidos podem assumir uma visão dos acontecimentos que, até agora, é confiante e otimista. No Golfo, o levante no Bahrein, que poderia ter posto em risco seu Q.G. naval, foi esmagado por uma intervenção contrarrevolucionária na melhor tradição de 1849, com uma impressionante demonstração de solidariedade interdinástica. Os reinos saudita e hashemita aguentaram firmes.
O bastião iemenita da batalha contra o salafismo parece mais periclitante, mas o ditador de turno é dispensável. No Egito e na Tunísia, os governantes se mandaram, mas a hierarquia militar do Cairo, com suas excelentes relações com o Pentágono, continua intacta. E a grande força civil emergente em ambos os países é um islamismo domesticado.
Anteriormente, a perspectiva de a Irmandade Muçulmana – ou de suas sucursais regionais – entrar para o governo teria provocado grande alarme em Washington. Mas o Ocidente dispõe agora de um modelo tranquilizador na Turquia, aplicável nas terras árabes, que oferece o melhor dos mundos políticos. O Partido da Justiça e Desenvolvimento da Turquia mostrou o quão leal à Otan e ao neoliberalismo ele pode ser. E mostrou também que é capaz de aplicar doses certas de intimidação e repressão, mesmo numa democracia piedosa e liberal, brandindo o porrete e o Alcorão. Se um Erdoğan puder ser encontrado no Cairo ou em Túnis, Washington terá todos os motivos para ficar satisfeito com a sua troca por Mubarak e Ben Ali.
Nessa perspectiva, a intervenção militar na Líbia pode ser considerada a cereja no bolo – servindo, simultaneamente, para polir as credenciais democráticas do Ocidente e se livrar do mais recente e embaraçoso recruta da “comunidade internacional”. Sendo mais um luxo do que uma necessidade para o poder global americano, a iniciativa do ataque da Otan veio da França e da Inglaterra, reencenando, como numa máquina do tempo, a expedição de Suez em 1956.
Novamente, Paris tomou a iniciativa, para limpar Sarkozy de suas intimidades com Ben Ali e Mubarak, e também para deter a sua desastrosa queda nas pesquisas de opinião. Londres entrou em forma para atender ao desejo de Cameron em imitar Blair. O Conselho de Cooperação do Golfo e a Liga Árabe deram cobertura ao empreendimento numa mansa imitação de Israel em 1956.
Mas Kadafi não é Nasser, e Obama, dessa vez com poucos motivos para temer as consequências, pôde acompanhar a iniciativa. O protocolo de hegemonia exigiu que os Estados Unidos assumissem o comando nominal, permitindo que guerreiros como a Bélgica e a Suécia mostrassem o seu valor aéreo. Para o pessoal da era Clinton que permaneceu no atual regime americano, um bônus adicional será a reabilitação da intervenção humanitária, depois dos reveses no Iraque.
Os meios de comunicação e a intelectualidade francesa, como era de se prever, extasiaram-se com a restauração da honra da pátria nesse gênero de empreendimento. Mas mesmo nos Estados Unidos o cinismo está disseminado: o molho para o ganso líbio, visivelmente, não é o mesmo para o pato de Bahrein, ou qualquer outro.
Até o momento, nada disso alterou o panorama da revolta. Cautela com o poder do hegemônico, preocupação com aspectos nacionais, simpatia pelos rebeldes líbios, esperança de que o episódio acabe logo – tudo isso se combinou para emudecer as reações ao mais recente bombardeio pelo Ocidente. Mas não é de se esperar que a questão nacional continue indefinidamente separada da questão política e da social.
Para o mundo muçulmano a leste da agitação, as guerras americanas no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão ainda estão por serem vencidas, e o bloqueio do Irã ainda está longe da sua conclusão lógica. E, no centro da agitação, a ocupação da Cisjordânia e o bloqueio de Gaza continuam como antes. Até o mais moderado dos regimes democráticos pode achar difícil se isolar desses teatros de prepotência imperial e de selvageria colonial.
A maioria das nações do mundo árabe – exceto Egito e Marrocos – são criações artificiais do imperialismo ocidental. Mas, assim como na África Subsaariana e alhures, as origens coloniais não impediram que se cristalizassem identidades no interior das fronteiras artificiais desenhadas pelos colonizadores. Nesse sentido, toda nação árabe tem hoje uma identidade coletiva tão real e problemática quanto qualquer outra.
Há uma diferença, porém. Língua e religião, entrelaçadas em textos sagrados, foram – e são – historicamente fortes para caracterizar uma demarcação cultural que extrapola a imagem de cada estado-nação em particular. Esse ideal forjou o nacionalismo árabe – e não egípcio, iraquiano ou sírio.
Houve então a ascensão, a corrupção e o fracasso do nasserismo e do baathismo. Eles não ressuscitarão. Mas o impulso que fez com que existissem terá de ser recuperado, se a revolta se tornar uma revolução no mundo árabe. A liberdade e a igualdade precisam ser reconectadas. Mas, sem fraternidade, numa região tão difusamente maltratada e interligada, elas correm o risco de azedar.
Dos anos de 1950 em diante, pagou-se um preço muito alto, em termos de egoísmo nacional, para se obter algum progresso no Oriente Médio e no norte da África. O que se precisa não é a caricatura de solidariedade oferecida pela Liga Árabe, instituição cuja folha corrida de traições e de fracassos rivaliza com a da Organização dos Estados Americanos, a OEA, nos dias em que Fidel Castro, com toda a razão, a chamava de Ministério das Colônias americano. É necessário que exista um internacionalismo árabe generoso, capaz de visualizar – num futuro distante, quando o último xeque for derrubado – uma distribuição equitativa da riqueza do petróleo, proporcional à população, e não manter a monstruosa e arbitrária opulência de uns poucos, e a indigência desesperada de tantos outros.
No futuro mais imediato, a prioridade é simples: uma declaração conjunta de que o tratado abjeto que Sadat assinou com Israel está morto e enterrado –um tratado que arrasou os seus aliados em troca de um arranjo que não dá ao Egito sequer a soberania para mover seus soldados em seu próprio território; um tratado cujas implicações referentes à Palestina, desprezíveis em si mesmas, Israel nem sequer simulou cumprir. Eis aí o teste decisivo da recuperação da dignidade democrática árabe.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Kim e o Circo



RESPEITÁVEL PÚBLICO


No circo de lonas costuradas
De panos e remendos coloridos
Caminhava o marombeiro ativo
Um carlitos pobre das estradas

Corriam povoados de mídias e muros
Na agonia da perfeição
Argúcias para a arte em extinção
A troupe mambembe sem futuro

Dionísios, mágicos e cabotinos
Mostravam a plateia pobre e pueril
Esforços de poses, risos e desatinos

No espetáculo de ensaiados passos
Nariz vermelho, trejeito senil
Ainda imperava o velho palhaço.

Para os pequenos circos que passam na minha cidade do interior, a magia da arte popular que insiste em não morrer.
Jaime.

segunda-feira, 25 de julho de 2011


Samuel Beckett e Albert Camus, dois prêmios nobel de literatura, são leituras obrigatórias para quem faz uma opção do absurdo como literatura. Beckett notabilizou-se no teatro do absurdo e Camus nos mostra a filosofia do absurdo em seus ensaios e romances.

A comparação está entre a peça de Beckett, “Esperando Godot” e o romance “O Estrangeiro” de Camus, ambas mostram a falta de sentido da vida humana, nosso universo irracional e uma crítica de nosso inútil esforço para entender o significado dos acontecimentos da vida humana.

“Esperando godot” é a espera de algo que nunca vem, assim como o homem à espera de Deus que nunca chega e termina em coisa nenhuma, deixando para os personagens, Vladimir e Stragon, uma decisão: apenas ir vivendo num mundo irracional. Em “O Estrangeiro”, o personagem Mersault vive numa descrença, num tédio e ao mesmo tempo ele age de maneira indiferente a tudo: a todas as normas sociais, impermeável a todos os valores morais e ao mundo que o rodeia. Um detalhe interessante, foi escrito por Camus em “As Cartas a um Amigo Alemão”, escritas durante a guerra. Nelas, Camus diz: “Acho que o mundo não tem sentido, mas sei que algo nele tem sentido, e é o homem, porque é o único ser que reclama um sentido”.
Jaime



Samuel Beckett foi um dos fundadores do teatro do absurdo, é considerado um dos principais autores do século 20. Sua obra foi traduzida para mais de trinta idiomas.

Beckett nasceu em 1906 em Foxrock, perto de Dublin numa família burguesa e protestante, em 1927 graduou-se em literatura no Trinity College de Dublin, onde estudou também italiano e francês.

Em 1928, foi lecionar em Paris onde conheceu James Joyce, de quem se tornou amigo. Durante o ano de 1930, Beckett lecionou na Irlanda. Nessa época escreveu o estudo crítico "Proust", comentando a obra do grande escritor francês.

No ano seguinte Samuel Beckett fixou residência em Paris e escreveu a sua primeira novela, "Dream of Fair to Middling Women", que seria publicada somente depois de sua morte.

Em 1933, voltou a Dublin por motivos familiares, mas retornou a Paris em 1938. Nessa época, levou de um estranho uma facada no peito e ficou gravemente ferido.

No início da Segunda Guerra Mundial, Beckett vinculou-se à Resistência Francesa, juntamente com sua esposa, Suzanne Deschevaux-Dusmenoil. Em 1942, foi obrigado a fugir para Vichy, onde escreveu parte da novela "Watt". É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária.

A partir de 1945, o seu idioma literário passou a ser o francês. Entre 1951 e 1953 escreveu uma trilogia ("Molloy", "Malone Morre" e "L'Innommable"), cujo tema é a solidão do homem. Com "Esperando Godot", Beckett iniciou, ao mesmo tempo que Ionesco, o teatro do absurdo. Depois começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói uma obra dupla, bilíngue, cada vez mais depurada.

Posteriormente ainda escreveu, além de algumas obras narrativas, diversas peças teatrais, como "Fim de Festa", "Ato sem Palavras" e "Os Dias Felizes".

Em 1969, Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, distribuindo o dinheiro pelos amigos. Durante a vida escreveu poemas e textos em prosa, como romances, novelas, contos e ensaios, além de textos para o teatro, o cinema, o rádio e a televisão.

Samuel Beckett morreu em 1989, cinco meses depois de sua esposa. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse.

[três poemas de amor]

cascando

1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do que nunca

com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas

2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a resolver outra vez no coração
amor amor amor pancada de velha batedeira
pilando o sono inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

3

a não ser que te amem

Samuel Beckett
(tradução de Miguel Esteves Cardoso in As Escadas não têm Degraus 3, livros Cotovia - Março de 1990)

Peças, romances, novelas, contos, prosa, ensaios, poesias, a produção Becketiana é um ícone, uma veemente crítica a modernidade. Beckett é dos meus autores preferidos, com seu especial sendo sardônico de humor negro, é uma língua suja engenhosa, fala da escória, das putas e dos canalhas com muito talento.

Beckett mostra o sujo e joga limpo, não me engana, não me tapeia e vai aonde muitos autores não se atrevem com medo de cair ou escorregar no lugar comum. Ele é o rei da nossa grande realidade, da metáfora, da ironia e do sarcasmo, um mestre que nos desnuda inteligentemente e mostra o existencialismo, o trágico, a solidão, o pessimismo e o absurdo da condição humana, o resto é conto de fadas para iludir nossas vidas. Porém, não se iludam, porque é preciso estar preparado para o estilo Beckettiano, nele não existe meios termos, ou você mata a obra ou descobre o olimpo do prazer literário.

Eu, além do prazer, curto o sentido de fugir do lugar comum, espiando pela ótica de Beckett o contrário do bom senso e as doutrinas que o comum tenta me inculcar. O interessante em Beckett é que no início a literatura parece tola, mas aos poucos você percebe que até o silêncio das falas dos personagens não são simples inerrupções, são para refletir, respirar, pensar, entender o poderoso simbolismo subjacente da obra.

Se os personagens estiver esperando Godot na rua, esperam alguém que lhes dê o sentido da vida, se estivessem numa prisão, estariam esperando pela liberdade, todos nós estamos esperando alguém que responda nossas angustiantes perguntas, todos nós somos personagens de Beckett.
Jaime

“Fail. Fail again. Fail better”.

“Falhar. Falhar de novo. Falhar melhor”.
Samuel Beckett

"De todas as definições sobre Beckett, para mim a melhor foi como Harold Pinter, outro grande representante do Teatro do Absurdo (nobel em 2005), assim o definiu:
Quanto mais longe ele vai mais bem me faz. Não quero filosofias, panfletos, dogmas, credos, saídas, verdades, respostas, nada a preço de saldo. Ele é o escritor mais corajoso e implacável que aí anda e quanto mais me esfrega o nariz na merda mais reconhecido lhe fico. Não se põe a gozar com a minha cara, não está a levar-me à certa, não me vem com piscadelas de olho, não me oferece um remédio nem um caminho nem uma revelação nem um balde cheio de migalhas, não me está a vender nada que não queira comprar, está-se borrifando para se eu compro ou não, não tem a mão sobre o coração. Bom, vou comprar-lhe a mercadoria toda, de fio a pavio, porque ele espreita debaixo de cada pedra e não deixa nenhum verme sozinho. Faz nascer um corpo de beleza. A sua obra é bela."
Harold Pinter, 1954


Samuel Beckett traz mais uma vez o silêncio, “o abismo de consciência” que recai sobre a solidão da fantasiosa sociedade burguesa ocidental, palco das críticas do Teatro do Absurdo.
“Resta pouco a dizer numa última tentativa de sofrer menos.”




Seus temas destacam o isolamento do homem em ambientes estranhos, o absurdo da vida e do universo e o exame da moral e da condição humana. A obra desse grande romancista, dramaturgo, ensaísta e filósofo, abordou a alienação e o desencanto do homem no pós-guerra.

Com o falecimento do pai em combate na Primeira Guerra Mundial, menos de um ano depois do seu nascimento no dia 7 de Novembro de 1913, sua mãe levou-o, junto com a família, para morar num bairro pobre de Argel, capital da Argélia. Aluno muito inteligente, ganhou uma bolsa de estudos para o liceu de Argel, de onde foi para a Universidade de Argel a fim de estudar Filosofia.

Desportista dedicado e exímio futebolista, suas ambições de atleta foram, todavia, frustradas pela tuberculose. Albert Camus direcionou então sua atenção para a literatura. Estudou os clássicos franceses e a política de esquerda e atuou durante algum tempo no Partido Comunista Argelino, em 1935, até ir trabalhar como jornalista para o jornal socialista Alger-Republicain. A paixão pelo teatro o levou a escrever, produzir e atuar no Théâtre du Travail. Apesar de só ter sido produzida em 1945, sua peça Calígula foi escrita pouco antes de suas obras mais admiradas.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, aos 25 anos de idade foi para a França juntar-se ao movimento de resistência à ocupação alemã, trabalhando como editor do diário parisiense clandestino Combat. Foi nessa época tumultuosa que escreveu seu primeiro e mais celebrado romance O Estrangeiro (publicado em 1942). Nele, o jovem argelino Meursault é levado a julgamento por matar um árabe. Entretanto, não é a natureza do crime que ofende o tribunal, mas sua recusa em sentir remorso. Meursault é considerado subumano, um perigo para a sociedade por sua não conformidade. Seu desapego e sua alienação emocional acabam levando-o à morte. A sensação de absurdo e a falta de sentido do mundo são temas recorrentes em Camus, pelo que acabaria sendo rotulado de existencialista, ao lado de seu então amigo Jean-Paul Sartre.

O ensaio filosófico O Mito de Sísifo (seu primeiro ensaio publicado em 1942) deu continuidade à sua exploração do absurdo e da inútil busca humana de significado num mundo incompreensível. Camus nos apresenta vários dualismos paradoxais, como a asserção de que a vida tem um grande valor, porém é banalizada pela morte, que a priva de significado. Sua conclusão é de que, para sobrevivermos, é melhor deixar de lado as ambições e concentrarmo-nos no cotidiano.

A fé persistente de Camus na bondade intrínseca do homem é, no entanto, mais bem retratada em seu segundo romance, publicado em 1947, intitulado A Peste, um relato alegórico da ocupação nazista da França em que os cidadãos da cidade argelina de Oran são assolados por uma praga de ratos e isolados do mundo exterior. O triunfo final do espírito humano é o resultado da decisão unilateral de trabalhar juntos em vez de buscar soluções pessoais.
Camus examinou a ideia de rebelião em seu longo ensaio O Homem Revoltado (publicado em 1951). Na década de 1950, dedicou também boa parte de seu tempo a questões de direitos humanos, defendendo a abolição da pena capital em todo o mundo e denunciando a repressão soviética da Revolução Húngara em 1956. Nesse mesmo ano publica seu último romance, A Queda - uma série de elegantes monólogos do bem-sucedido advogado de defesa parisiense Jean-Baptiste Clemence. A história de Clemence equivale a uma confissão: toda uma vida dedicada a ajudar os fracos e oprimidos se desmancha na hipocrisia complacente de ações realizadas para sua exclusiva satisfação. Em 1957 (No mesmo ano da publicação de seu livro de contos O Exílio e o Reino), aos 44 anos de idade, Camus ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Aproximadamente três anos depois, seu filho falece e, posteriormente, Camus morre no dia 4 de Janeiro de 1960, num acidente de automóvel, nos arredores da cidade de Sens, na França.



A obra de Camus é grandiosa, magnífica, além do absurdo, Camus nos mostra a revolta, cada um associado a um mito grego, Sísifo o absurdo e Prometeu a revolta, Entre a minha preferidas, além do “O Estrangeiro”, esta “A peste”, uma alegoria ao nazismo e por extensão uma crítica a todo regime totalitário. “O Homem Revoltado”, é aquele homem que diz não a tudo o que força seus limites, a tudo que o violenta e o priva de exercer livremente o que considera seus direitos, mas sabe também que sua revolta deve respeitar alguns limites. Jean Paul Sartre (filósofo existencialista francês), não gostou do homem revoltado, é que para Sartre só existia o homem revolucionário, mas este fato, suas amizades e desavenças é outra história.
Jaime


"Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror."
Albert Camus

segunda-feira, 13 de junho de 2011

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TRANSGRESSOR (O ser social)

Alguns só falam em negócios
Ou sobre putas
Ou sobre o ócio
Eu além disso falo da rima
Sobre a métrica
Metáforas e dialéticas.

Alguns são confrarias
Prato e bispote
Esbornias e faloforias
Eu sou o DNA que envenena
Um maluco transgressôr
A maldição da eugenia

Tudo é a confusão
Do perfeito mundo imperfeito
Um diz sim outro diz não
O que resulta é a procura
Uns de só o viver
Outros de entender a loucura.

Para o meu eu arredio - Jaime

sábado, 30 de abril de 2011

MUTAÇÃO

O vento brando
Do Morro das Mortes
Entravam em minha janela
Aeolus em tom de prosa
Tocava os cristais da porta
Numa música silenciosa.

Num repente
Da brisa suave o revés
Tudo enfurece
Com raios fuzilando
Em noites loucas de dormir
Ou então ficar vagando.

Vendavais que me embalam
Torvelinhos
Coriscos
Que iluminam a praça
Transformam-me em fantasma
Um espectro na vidraça.

Eu a beira do vento
O Morro das Mortes me chama
Loucos Deuses
Loucos ventos
Loucos
Eu e o tempo.

A loucura e o fascinio de observar temporais e o outeiro iluminado pelos raios, Morro das Mortes, primeiro nome do meu pequeno município, diante do quadro lembrei Clarice, numa noite de bruxas. – Jaime Baghá

* “Eu a beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama”, Clarice Lispector. Para além da orelha existe um som...




Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Clarice Lispector

sexta-feira, 22 de abril de 2011




A onda de protestos e mobilizações populares nos países do Oriente Médio foi como um jogo de dominó, passando de país para país e traz consigo grandes mudanças. Mostra o basta do sofrimento de um povo contra os regimes autoritários, em especial os jovens muçulmanos que gritam por liberdade, democracia, equidade e justiça social e dita uma reconfiguração da geopolítica regional, que ao que tudo indica, desloca dos centros de poder a influência dos EUA nestas regiões e anuncia a formação de um novo bloco, em jogo a exploração comercial do petróleo que traz implicações enormes para a ordem global. Muito atento a estes acontecimentos, o que mais me chamou atenção foi a matéria que o jornalista Diego Viana fez sobre o jovem tunisiano Moahamed Bouazizi, que colocou fogo no seu próprio corpo como forma de protesto (um ato parecido com o monge budista Thich Quang Dúrc em Saigon no Vietnã em 1963), por sua perspectiva de vida sem futuro, igual a milhares de jovens tunisianos que perderam a dignidade por falta de perspectivas e pela política cruel que o seu governo fazia com o povo. O ato levou a queda do ditador Ben Ali e daí por diante vimos o efeito e o começo da história. A seguir a matéria que gostei muito e repasso a vocês.
Jaime Bagha

“Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscretoempresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado.
Algo na morte de Bouazizi é diferente. Talvez porque ele nem era um religioso preparado para o outro mundo, nem fez um pacto, como Palach, aliás descumprido por quase todos os colegas. Na manhã do dia em que se incendiou, Bouazizi não queria morrer, queria trabalhar. Teria preferido a dignidade de exercer sua profissão, era técnico em informática, mas se a ditadura tunisiana não lhe oferecia as condições econômicas para isso, sujeitava-se a vender frutas sem licença.
Nem isso a ditadura tunisiana lhe concederia. Tampouco a dignidade de ser abordado respeitosamente pela polícia. Bouazizi morreu porque não podia trabalhar, não podia sobreviver e não podia aceitar a humilhação de levar uma bofetada diante do confisco de sua mercadoria. O que ele tinha para pensar? Que espaço sobrava para a reflexão? Seu único recurso era o imediato. Diante da prefeitura, o fogo.

Daí por diante, a história é conhecida. Os tunisianos se sublevaram, 400 foram massacrados pela polícia, mas o ditador Ben Ali caiu. Os egípcios passaram dezoito dias ao ar livre, apanhando de capangas da tirania e suportando um discurso vacilante do poder apodrecido. Mas o ditador Mubarak caiu (vamos ver o que acontece com o regime como um todo).
Apesar dos protestos em uma dúzia de países árabes, nada indica que outros cairão. Mas quem sabe? A energia coletiva se transmite em ondas, numa vibração que se expande quase sem dar na vista. Spinoza já dizia, Tarde já dizia, Deleuze já dizia, deveria ser óbvio por agora. Talvez todos os árabes consigam sua democracia, ou então serão massacrados mais uma vez.
Aos historiadores: olho nos jornalistas.

Mas voltando a Mohamed Bouazizi: o que seu suicídio tem de único é que foi um gesto de transbordamento de vida. Coisa de quem tinha o caos dentro de si para gerar uma estrela. Ou uma revolução.

Pode parecer paradoxal, mas é o aspecto mais belo da história contada na África em 2011. Bouazizi foi quase um herói nietzschiano. Bouazizi morreu porque sua vida não cabia na lata de sardinha que a tirania lhe oferecia. Ele não sabia disso, como o sabiam ou ao menos intuíam seus antecessores vietnamita e tcheco. Sua vida vibrava de dentro para fora. Humilhação, frustração, aniquilamento, não eram para ele.

A rigor, não são para ninguém. Mas foi necessária a explosão de uma vida para incendiar centenas de milhões de outras almas, filhas, netas e bisnetas de gente que até então não conheciam muitas outras palavras a fundo. Só humilhação, frustração, aniquilamento. Bouazizi morreu e infundiu vida em quem estava amortecido. Foi o funâmbulo que caiu, mas cuja multidão, no lugar de humilhá-lo, absorveu a matéria carbonizada de seu corpo e partiu para mudar o mundo. Outros morreram, mas nada mais poderia pará-los: impossível morrer mais do que o primeiro herói.
Todo mundo se lembra de Nietzsche quando um maluco qualquer, um Raskolnikov afásico nos cafundós da América profunda, se toma por um “super-homem” com espinhas e sai metralhando por aí porque se acredita “acima” do bem e do mal. Mas a hora de lembrar de Nietzsche, na verdade, é agora. Como Zaratustra (na versão do filólogo alemão), Mohamed Bouazizi morreu abraçando a terra.
Alguém poderia objetar que a terra de Zaratustra era a matéria de que somos feitos, nossa argila, nossa carne. Mas a terra que o Bouazizi moribundo abraçou também era dessa terra. Era o pó de que viemos e para o qual voltaremos. Era sua terra. Das montanhas de Atlas ao delta do Nilo, do Saara à costa do Mediterrâneo. Todo esse território de história milenar adquiriu vida como os gigantes cadmeus, depois que foi abraçado pelo rapaz a quem não deixariam viver, então de presto, desafiador, não viveu.
Mas morreu em nome da vida. Nem que fosse a vida dos outros.”


Carta de Bouazizi para sua mãe


"Estou viajando mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer."
—Mohamed Bouazizi