sexta-feira, 13 de julho de 2012

            Reunião de Personalidades (clique para ampliar imagem)

VOCÊ E EU

Você gosta do Fernando Henrique, eu do Lula
Você gosta do Ronaldo Caiado, eu do Pedro Stédile
Você gosta do bispo Luiz Bergonzini, eu do Frei Beto
Você gosta do Botha, eu do Mandela
Você gosta do Bush, eu do Fidel
Você gosta do Vargas Losa, eu do Gabriel Garcia Marques
Você gosta dos cachorros de Pinochet, eu de Camila Vallejo
Você gosta do Pinochet, eu do Pablo Neruda
Você gosta do Kennedy, eu do Che Guevara
Você gosta do General Custer, eu do Simon Bolívar
Voce gosta do Thomas Edison, eu do Nícola Tesla
Você gosta do Pizarro, eu do Atahualpa
Você gosta do Avigdor Lieberman, eu do Ilan Pappé
Você gosta do Churchill, eu do Gandhi
Você gosta do John Wayne, eu do Grande Otelo
Você gosta do Búfalo Bill, eu do Lampião
Você gosta do Costa e Silva, eu do Brizola
Você gosta do Reagan, eu do Mitterrand
Você gosta do sertanejo, eu de moda de viola
Você gosta de funk, eu de samba
Você gosta de balada, eu de jazz
Você gosta do Paulo Coelho, eu do Veríssimo (os dois)
Você gosta do Stalin, eu do Prokofiev
Você gosta do general Franco, eu do Garcia Lorca
Você gosta da “mão invisível”, eu da “Mais-Valia”
Você gosta do Salieri, eu de Mozart
Você gosta do Rupert Murdoch, eu do Jean Baudrillard
Você gosta dos irmãos Coen, eu gosto do Ken Loach
Você gosta da América do Norte, eu da América Latina
Você gosta de Jurerê, eu da Praia do Rosa-SC.
Você gosta da Usina Belo Monte, eu dos índios do Xingu
Você gosta de “Caras”, eu de “Caros Amigos”
Você gosta da “Veja”, eu da “Cult”
Você gosta do Roberto Campos, eu do Darcy Ribeiro
Você gosta do Mickey, eu do Chico Bento
Você gosta da Wanessa Camargo, eu da Vanessa da Mata
Você gosta do Billy Graham, eu do Mather Luther King
Você gosta do Dale Carnegie, eu do Bukowski
Você gosta do P.A.N. ou do P.R.I. eu do subcomandante Marcos
Você gosta do Blackwater eu do Greenpeace
Você gosta de Coca-Cola, eu de Laranjinha (Agua da Serra - SC)
Você gosta dos dogmas, eu do Nitetzsche
Você gosta de globalização, eu de ocupação
Você gosta do neoliberalismo, eu do socialismo
Você gosta de globalizar, eu de desglobalizar
Você gosta das corporações, eu de responsabilidade moral
Voce gosta dos capitalistas, eu dos marxistas
Você gosta dos alienados, eu dos indignados
Você gosta da princesa, eu dos rioters
Voce é um Homo Internéticus, eu um Homo Literatus
Você espera a sorte, eu espero Godot
Jaime Baghá, sempre na contramão.

domingo, 24 de junho de 2012


INDIGNAI-VOS
O livro de Stéphane Hessel, “Indignai-Vos” (Indignez Vous), ultrapassou os 500 mil exemplares em vendas, nele Hessel convida para que as pessoas façam um envolvimento social e político para um mundo diferente e mais igualitário. No seu opúsculo, mas grandioso livro, ele fala aquilo que todos vemos e não nos indignamos, porque estamos cegos em ser aquilo que a mídia comparsa quer. Não vimos a vergonha de uma sociedade doente perniciosa e corrupta, uma oligarquia de ricos e poderosos junto com políticos canalhas, comprados pelos mercados financeiros, abandonando os valores de uma democracia moderna e decente. Hessel conclama por todos os tipos de indignados, principalmente os mais jovens, em sua maioria agindo como zumbis para o consumismo moderno. “Aos Jovens eu digo: olhem a sua volta e vocês encontrarão os temas que justificam a sua indignação”.  Hessel sofre acusações por parte de algumas organizações judaicas, porque se solidariza com o sofrimento dos palestinos, estas organizações esqueceram o que Hessel nunca esqueceu, como judeu perseguido que passou por campos de concentração e lutou bravamente na resistência francesa contra os nazistas.  Diplomata, embaixador e participante da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, Hessel sabe bem o que fala.
Fiquei muito surpreso ao abrir o livro de Hessel, não pelo conteúdo, o qual eu já tinha uma expectativa do que se tratava, mas por deparar-me na primeira página, com a figura de um quadro de Paul Klee, “Angelus Novus”, em que Hessel se refere ao comentário do filósofo alemão Walter Benjamin, que foi o primeiro proprietário da obra e sobre a qual ele via um anjo repelente. Benjamin falava da “tempestade que chamamos de progresso”. Minha surpresa é que numa postagem em meu blog em 26 de março de 2009, coloquei uma poesia de minha autoria chamada “A Tempestade”, onde eu mostro uma foto de Benjamin e o quadro de Paul Klee. Minha poesia também é uma indignação contra as atitudes dos afortunados e políticos, dos que obtém lucro na devastação. “Aquilo que chamamos de progresso é este vendaval”, ela foi composta em 1999 sem que eu nunca tivesse ouvido falar do Sr. Hessel. Muitas vezes me refiro como um “cara que anda sempre na contramão”, é uma ironia referente às minhas posições que carrego desde muito jovem. Vendo a opinião de Stéphane Hessel e da grande maioria dos escritores, filósofos e ativistas políticos com responsabilidade moral e social, fico muito feliz em ter esta linha de pensamento. Minha poesia publicada nas primeiras postagens deste blog com a mesma indignação, numa visão que antecipa a obra de Hessel, fortalece o meu pensamento e dos que amam o planeta terra e seus semelhantes.
“Ceux que marchent contre Le vente”, os que andam contra o vento, nome que foi pego emprestado dos Omahas (povo indígena da América do Norte da família dos Sioux), para dar nome a esta coleção do livro de Hessel. Acho que também sou um dos: “Os que andam contra o vento” e creio que vou morrer na contramão, um socialista libertário sem expressão de uma província do interior, um rebelde sem pausa.  

Jaime Baghá

domingo, 27 de maio de 2012

PINA BAUSCH



PINA

Ser Pina
É ousadia
Fragmentos
Ações e sentimentos
Suspense
Contraposições
Diagonais e progressões.

Ser Pina
É ser humano
Prisioneiro
Crueldade e abandono
É perda
Luto
Alegria e beleza.

Ser Pina
É liberdade
Paixão
Conflitos e história
É amor Lírico
Ternura e glória

Ser Pina
É absoluta
Minimalista
Além do artista
Elementos
Dança
Tempo e movimento.

Ser Pina
É dar forma
Sentir
Elegante e sutil
Nobre
Você
E o que te move

Ser Pina
É estar vivo
“Ou dançamos ou estamos perdidos”.

E se você puder, pode ser gloriosa como Deborah Colker.
Jaime Baghá




Pina, a bailarina que mistura tipos e seres em suas danças, a coreógrafa que conta histórias, misturando raças e etnias, mostrando que acima de tudo o mais importante é o ser humano, seus sentimentos e sua emoções. Pina mostra nossas paixões, ternura, timidez, seduções, alegrias e tormentos, é única, é uma lenda, é arte que me da prazer e me emociona, bem como a define Wim Wenders, é “sonho em movimento”. Vejam o filme “Pina”, documentário em 3D, uma homenagem de Wim Wenders a coreógrafa alemã. 
Jaime Baghá


domingo, 15 de abril de 2012

EIS OS GOVERNOS

Ser governado é ser observado, inspecionado, espiado (no sentido de falta de privacidade tal como se entende hoje), dirigido, legislado, numerado, regulado, regulamentado, parqueado (enrolled), doutrinado, controlado, calculado, avaliado, censurado, por criaturas que não têm nem o direito nem a sabedoria nem a virtude para fazê-lo.

Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação. A cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido.

Ser governado é, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetida à contribuição, utilizado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado, e depois, a menor resistência, a primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado.

Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral, por isso sempre fui e sempre serei gauche, rebelde, irônico, com especial senso sardônico de humor negro, sempre com uma tendência de fazer o contrapeso lançando luz sobre uma área do pensamento que não esta sendo enfatizado, vivendo fora do consenso para manter meu olhar livre, pois é um problema viver numa sociedade que já não enfatiza e não pensa muito, ou nada. Assim como Nietzsche acho que os códigos morais são mentiras e fraudes com o objetivo de mascarar as forças e influenciar o comportamento humano, por isso viva todos os rebeldes, cults e ousados, viva todas as tribos que cospem nestes padrões pré-estabelecidos e nos seus demônios, destruidores do planeta, criadores da miséria e das guerras.

Assim como Proudhon

Jaime Baghá

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo... A.Camus



O Maldito Céline não sai de moda, o texto abaixo mostra que tudo continua o mesmo, os dignos de vênia ajudam a lotar mais e mais prisões para que os "indignos" se comportem e fiquem quietinho no seu lugar de miséria. Enquanto os colossais do poder roubam, falseam, traem, mentem, destroem e recebem a benção da “justiça” e da “lei”, como os verdadeiros veniais, sempre trilhando os caminhos do poder com suas impunidades. Não parece bem com o Brasil?
Jaime

É verdade que estamos habituados a admirar todos os dias bandidos colossais, cuja opulência o mundo inteiro venera conosco e cuja existência se revela, porém, assim que examinamos um pouco mais de perto, um longo crime renovado todos os dias, mas essas pessoas gozam de glória, honrarias e poder, seus crimes são consagrados pelas leis, ao passo que tão longe quanto recuamos na história, e você sabe que sou pago para conhecê-la, tudo nos demonstra que um furto venial, e mais ainda, de alimentos ordinários, tais como massas, presunto ou queijo, atrai inevitavelmente para seu autor o opróbrio formal, o repúdio categórico da comunidade, os castigos maiores, a desonra automática e a vergonha inexpiável, e isso por duas razões, primeiro porque autor de tais atrocidades é em geral um pobre e que este estado implica em si mesmo uma indignidade capital, e depois porque seu ato comporta uma espécie de crítica tácita à comunidade. O roubo do pobre torna-se uma maliciosa reapropriação individual, está me entendendo?... Onde é que iríamos parar? Assim, a repressão aos pequenos furtos se exerce, repare bem, em todas as latitudes com rigor extremo, não só como meio de defesa social, mas ainda e sobretudo como uma recomendação severa a todos os pobres coitados para que se mantenham em seu lugar e em sua casta, sossegadinhos, alegremente conformados em morrer ao longo dos séculos e indefinidamente de miséria e de fome...

Louis-Ferdinand Céline

domingo, 11 de março de 2012

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
o Estado
tinha uma pedra no meio do caminho
a Justiça
tinha uma pedra
a Miséria
no meio do caminho tinha uma pedra
a indiferença.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigada
louca, alucinada, medradas, esgazeadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
o abandono
tinha uma pedra no meio do caminho
a prisão
no meio do caminho tinha uma pedra
de Crack.

E agora José
Você que é sem nome
E tudo acabou
Não existe porta
Você marcha, Jose!
Jose, para onde?

Profanei a poesia de Drumond para ela não sair de moda, para ela ser a poesia da era das celebridades, (palavra infecta) blargh! Da mídia, Big Brothers, burros, chulos, Pânico e putarias. Dos políticos nojentos e suas confrarias, dos judiciários fedorentos e suas ignomínias, da sociedade alegoria, emergente, siliconada, esdrúxula e suas madames com botox e cara de bruxa, dos seus filhos violentos, bêbados, arruaceiros, internautas fofoqueiros, de parco ou nenhum conhecimento, formando o Brasil do futuro, pátria esperta, malandra, de políticos ladrões e cracolândias.
Jaime


"Uma sociedade frágil, roída, consumida e abastardada por infindáveis quarteladas e golpes de estado fascistas como o de 1964; politicamente corrupta, porque o dinheiro vem antes da comunidade e seu sentido; intelectualmente capacho, porque jamais conseguiu abandonar a subserviência desde a pronúncia até as principais ideias; popularmente servil, amansada duramente por séculos de crença, favores e milagres; secularmente injusta, porque a lei não pode jamais ser feita "para o pobre", pois é coisa de Classe e de Estado; capada e recapada até não restar senão um gemido ridículo, humilde e metido a besta; curvada e recurvada, batida e rebatida. Sobre esta massa podre (que é o povo, sempre o povo!) impera, momento sim momento não, cada fatia de um Poder qualquer: uma vez é o momento dos coronéis, depois dos tenentes, depois dos generais; chega o momento do imperador, do governador, do presidente, do prefeito; passa o momento dos estudantes, dos jovens, das modas e chega o momento das mídias; passa o momento dos senhores de terra e chega o momento dos senhores das fábricas; passa o momento do Executivo, chega o do Legislativo; passa o momento do narcotráfico chega o momento do Judiciário. Cada momento destes, que não passam e se completam e se interpenetram, é o Horror! A supremacia da ignorância, do fascismo, da brutalidade, da insensibilidade, da delação: o momento da lei, da ordem, da pátria, da terra, da bandeira, da tortura, do exílio, da cotidiana passividade: momentos que causam dor, causam angústia, causam descrédito."
Alberto Lins Caldas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A GENIALIDADE DA LOUCURA

O que devemos denominar como loucura? Muita gente caracterizada como loucos os que acabaram em manicômios, em sarjetas e no mais completo abandono, deixaram-nos um legado artístico de notável poder criativo, mostrando que criatividade e doença mental sempre andaram muito próximas. A loucura para muitos foi, e ainda é, uma fonte de energia criativa, para muitos artistas é mais do que um colapso, era outro modo de raciocinar além do racional. Ao caracterizarem Edgar Alan Poe como louco, ele respondeu: “Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência”, e junto com Alan Poe temos uma lista muito grande de nomes célebres, alguns com graves transtornos psíquicos. Beethoven, John Nash, Ângelo de Lima Porto, Clarice Lispector, Jakob Michael Lenz, Clemens Brentano, Lord Byron, Tolstoi, Rachmaninov, Tchaikósvki, Robert Schumann, Camille Clauder, Virginia Woolf, Mary Shelley e tantos outros fazem parte desta lista. Ainda hoje temos constantes notícias de artistas com fixações estranhas, dependentes de álcool e drogas, numa loucura que atormenta suas mentes criativas. Amy Winehouse foi a perda mais recente, mas a lista é interminável e antiguíssima. Platão falara de uma “loucura divina” como base fundamental de toda criatividade, e o que dizem é que esta criatividade depende dos loucos, pois o homem sensato acolhe o mundo como ele é; apenas os loucos ousam mudar. Eu, Jaime Baghá, que também tenho um pé (ou a cabeça) na loucura, por amar demais toda esta arte e seus criadores e por achar que todo nosso progresso e processo criativo dependem deles, mostro seus personagens e seus devaneios lógicos. Mas, e a realidade? Ora, “o que me interessa a realidade se vivo dentro de um sonho”. Jaime Baghá.


“Ora, pois e que escarneça do escárnio a jubilosa loucura, quando súbito se apodera dos poetas em noite sagrada.” (Hölderlin)

“De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco.” (Michel Foucault)

“É preciso ter um caos dentro de si para dar a luz a uma estrela brilhante.” (Nietzsche)

“A loucura foi silenciada e encarcerada pela razão.” (Michel Foucault)

“Deixe-me por um instante, mergulhar na loucura dos sonhadores. Duvidar das regras que impõe o homem para não transgredir tudo aquilo que conhecemos. Não temo a aventura de viver em um mundo surrealista, porque meu espírito não conhece outra verdade, do que aquela que me leva além das fronteiras do impossível. No dia em que eu deixar de sonhar, mande-me flores brancas.” Texto atribuído a Salvador Dali

“Às vezes não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz.” William Faulkner, in “Na Minha Morte”.

“Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que veem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o status quo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo.” Jack Kerouac



Friedrich Wilhelm Nietzsche, 15.10.1844 – Weimar 25.08.1900. Iniciou seus estudos no semestre de 1864-1865 na Universidade de Bonn, em Filologia clássica e Teologia Evangélica. Transfere-se para Universidade de Leipzig. Durante seus estudos em Leipzig, a leitura de Schopenhauer (O Mundo como Vontade e Representação) vai construir a sua vocação filosófica. Nietzsche é um aluno brilhante, dotado de sólida formação clássica, aos 24 anos é nomeado professor de Filologia na universidade de Basileia, adotando nacionalidade suíça. Desenvolve durante dez anos a sua acuidade filosófica no contato com o pensamento grego antigo, tendo como predileto os Pré-socráticos, em especial para Heráclito e Empédocles.
Em 1889, começa a pirar. Saindo do seu quarto de pensão, vê um cocheiro açoitando seu cavalo. Precipita-se entre o animal e o açoite e perde os sentidos, ficando desmaiado dois dias. É internado, o diagnóstico é paralisia cerebral progressiva, causada pelo uso de drogas e tendo como agravante a sua saúde precária. Fica louco e esta crise de loucura durante anos até sua morte, coloca-o sob a tutela de sua mãe e sua irmã. Diz que é o sucessor do Deus morto e o bufão da eternidade. Escreveu cartas para muitas pessoas, assinando como Dionísio e o crucificado. Nietzsche sofria, não conseguindo tratamento adequado, tornara-se seu próprio médico. Tomava drogas como o ópio, haxixe (principalmente) e cloral.
Nietzsche se superou como pensador da cultura e artista. Sua influência na filosofia posterior é grande, como em Deleuze, Heidegger e Foucault. Depois da segunda guerra, houve uma retomada da interpretação de sua filosofia, em sua acepção original, não deturpada. Fez a crítica da modernidade e seu bravo peito desbravou os horizontes possíveis com o artifício da linguagem, não cedeu diante as adversidades em sua vida incomum. Influenciou também os existencialistas e os psicólogos. Além de músico, poeta filólogo e filósofo, foi um grande escritor. Suas obras têm um tom profundo e coeso, como em Platão.

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"
"Por que você se assusta? O que acontece para a árvore, acontece também para o homem. Quanto mais deseja elevar-se para as alturas e para a luz, mais vigorosamente enterra suas raízes para baixo, para o horrendo e profundo: para o mal".
“Os homens de convicção simplesmente não tecem considerações no que toca aos fundamentos do valor e desvalor. Convicções são prisões. (...) A grande paixão usa e volta a usar convicções, não se submete a elas...” Friedrich Nietzsche




Johann Christian Friedrich Hölderlin, Lauffen, Alemanha 02.03.1870 – 07.06.1843. Sintetizou na sua obra o espírito da Grécia antiga, os pontos de vista românticos sobre a natureza, poeta e romancista estando hoje entre os maiores poetas germânicos, admirado por Nietzsche, Heidegger, entre outros. Considerado um dos grandes poetas do ocidente e referência obrigatória para a filosofia da arte neste século. Holderlin, como lembra Antonio Cícero, “pensou o mundo enquanto poeta e pensou sobre o mundo enquanto filósofo”. Em 1805 sua insanidade é diagnosticada. Entretanto, essa caracterização de seu estado mental como loucura, é até hoje vista de forma incerta.
Então, em 1807 foi deixado aos cuidados de Ernst Zimmers, um carpinteiro que vivia em Tübingen e grande admirador da obra intitulada Hyperion. Sob o nome de "Scardanelli", Hölderlin escreveu ainda poemas, que contavam com grande estranhamento formal. Mesmo contando com alguns períodos de lucidez, não retornou mais ao convívio social. Durante os próximos 36 anos, permanecerá em um quarto em uma torre, às margens do rio Neckar, até 1843, ano de sua morte.

CANTO DO DESTINO DE HIPERÍON
No mole chão andais
Do éter, gênios eleitos!
Ares divinos
Roçam-vos leve
Como dedos de artista
As cordas sagradas.

Como adormecidas
Criancinhas, eles
Respiram. Floresce-lhes
Resguardado o espírito
Em casto botão;
E os olhos felizes
Contemplam em paz
A luz que não morre.

Mas, ai! Nosso destino
É não descansar.
Míseros os homens
Lá se vão levados
Ao longo dos anos
De hora em hora como
A água, de um penhasco
A outro impelida,
Lá somem levados
Ao desconhecido.

F.Holderlin

Tradução Manoel Bandeira



Antonin Artaud, 1896-1948, o existencialista do desespero, desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura. Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido).
Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.

"Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.




Gérard de Nerval nasceu Gérard Labrunie, em Paris, boêmio, escritor, foi uma das principais figuras do movimento romântico, simbolistas e surrealistas encontraram um ídolo em Nerval, que descreveu o seu estado de sonho como “supernaturalista”.
Conheceu o futuro poeta e crítico de literatura Théophile Gautier, eles tornaram-se amigos para a vida. Aos vinte anos de idade Nerval publica a tradução de J.W. Faust von Goethe (1828), que o autor alemão elogiou.
Nerval foi o homenageado original do poema de Baudelaire, "Un voyage à Cythère", que mais tarde integrou a obra Les Fleurs du mal. Baudelaire também compartilhou com Nerval uma paixão pela Orient e haxixe - que ambos frequentam nas reuniões do famoso "Club des Hachischins" e escreveu sobre a droga.
Desde o início de 1840 até à sua morte, Nerval sofreu de intermitentes ataques de loucura; o seu primeiro colapso mental deu-se em fevereiro de 1841.
A mais importante coleção de poemas de Nerval, Les Chimères, foi publicada juntamente com a coletânea de contos Les filles du feu, em 1854. O último trabalho, em parte autobiográfico, foi Aurélia (1855), escrito em prosa lúcida, mas alucinante. O narrador descobre o poder dos sonhos e a sua fé no amor é restabelecida após a sua descida para a loucura, o mundo além da razão.
Nerval cometeu suicídio aos quarenta e seis anos de idade. Em Aurélia, o seu testamento espiritual, Nerval disse: "Eu disse a mim mesmo: é a noite eterna sobre nós, e as trevas serão terríveis. O que vai acontecer quando eles todos percebem que não há mais sol?". O corpo de Nerval foi encontrado a 26 de janeiro 1855, pendurado num parapeito na Rue de la Vielle Lanterne, um dos seus lugares preferidos em Paris. Durante algumas décadas, Nerval caiu no esquecimento, até que o romancista e crítico de Rémy de Gourmont produziu uma nova edição dos seus trabalhos em 1905.

VERSOS DE OUTRO
Homem! Livre pensador! Serás o único que pensa
Neste mundo onde a vida cintila em cada ente?
De tuas forças tua liberdade dispõe naturalmente,
Mas teus conselhos todo o universo dispensa.
Honra na fera o espírito que fermenta…
Cada flor é uma alma em Natura nascente;
Um mistério de amor no metal reside dormente;
“Tudo é sensível!” E poderoso em teu ser se apresenta.
Receia, no muro cego, um olhar curioso:
À própria matéria encontra-se um verbo unido…
Não te sirvas dela para qualquer fim impiedoso!
Quase sempre no ser obscuro mora um Deus escondido.
E, como um olho novo coberto por suas pálpebras,
Um espírito puro medra sob a crosta das pedras!
Gérard de Nerval (Gérard Labrunie)




Dramaturgo sueco (22/1/1849-14/5/1912). Um dos criadores do teatro expressionista e o escritor mais importante da Suécia. Johan August Strindberg nasce em Estocolmo e é educado dentro do rigor puritano, que considera repressivo.
Sua primeira peça importante, Mestre Olof, de 1872, é um drama sobre a revolta contra as convenções sociais e todos os tipos de poder.
É reconhecido como escritor em 1879, com O Quarto Vermelho, primeiro romance naturalista da literatura sueca. As alucinações, visões e neuroses que tem no decorrer da vida não prejudicam sua criatividade, mas dificultam seus relacionamentos.
Casa-se e divorcia-se três vezes. Revela rancor contra as mulheres em várias peças, especialmente em O Pai (1887) e Senhorita Júlia (1899). Depois de 1883 vive em diversos países da Europa e se ocupa de experiências com alquimia e ciências ocultas. Volta à Suécia em 1897. Escreve de 1898 a 1904 as três partes da peça Para Damasco, precursora do teatro expressionista, que influencia inúmeros dramaturgos alemães. Morre de câncer, em Estocolmo.
http://www.algosobre.com.br/biografias/august-strindberg.html

INDRA *
Descemos à terra arenosa.
A palha dos campos ceifados cobriu nossos pés;
O pó das auto-estradas,
Fumaça das cidades,
Bafos de onça,
Fumos dos celeiros e das cozinhas,
Tudo suportamos.
Então, fugimos ao mar aberto,
Enchendo de ar nossos pulmões,
Batendo nossas asas,
Banhando nossos pés.
Indra, Senhor dos Céus,
Escutai-nos!
Ouvi nossos lamentos!
A terra está suja;
O mal é nossa vida;
O homem não pode ser salvo
Nem do bem nem do mal.
Vivem como podem,
Um dia de cada vez.
Filhos do pó, viajam por ele;
Nascidos do pó, ao pó retornam.
Receberam pés para se arrastarem,
Não asas para voar.
Cobrem-se ainda mais de pó –
Abraçando sua culpa
Ou a Tua?
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
Johan August Strindberg
* Indra é o deus das tempestades no hinduísmo, filho de Aditi com o sábio Kashyapa



Salvador Domenec Felip Jacint Dalí Domenech, 1º Marques de Dali de Púbol, importante pintor catalão, Figueres, na Catalunha, Espanha (11.05.1904 – 23.01.1989). Conhecido pelo seu trabalho surrealista, seus quadros chamavam a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, como nos sonhos, com excelente qualidade plástica.
Dalí foi influenciado pelos mestres da Renascença e foi um artista com grande talento e imaginação. Era conhecido por fazer coisas extravagantes para chamar a atenção, e que por vezes aborrecia aqueles que apreciavam a sua arte.

Em 1922, Dalí foi viver em Madri, onde estudou na Academia de Artes de San Fernando. Nessa época, ele já chamava a atenção nas ruas como um excêntrico, usando cabelo comprido, longos casacos, um grande laço no pescoço, calças até o joelho e meias altas. Foi amigo do poeta Federico Garcia Lorca e do cineasta Luis Buñuel.

Ao Lado da Morte Volutuosa - Salvador Dali



Espanha 1938



Crianças geopoliticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem-1943



Galatea de Esferas




Vincent Willem van Gogh, pintor pós-impressionista holandês, com influência profunda na arte do século XX, sofria de ataques frequentes de doenças mentais e ansiedade, cometeu suicídio aos 37 anos. Pouco reconhecido em vida, porém é considerado um dos maiores pintores da história. Seus quadros de cores vivas e de forte impacto emocional foi uma grande influência a arte modernista. Van Gogh entrou para a história como um herói romântico, um gênio torturado e incompreendido em seu tempo. Seus quadros, retratos, auto-retratos, paisagens e girassóis, estão entre os mais caros do mundo, “Retrato do Doutor Gachet” foi vendido por 82,5 milhões de dólares em 1990.

Dr.Paul Gachet-1890


Noite Estrelada Sobre o Rhone




Francisco José de Goya y Lucientes, conhecido como Francisco Goya, 30.03.1796 - 15.041828, foi o mais importante pintor espanhol na fase do romantismo, retratou vários temas em suas pinturas, paisagens, cenas mitológicas, religião, demônios, guerras, homens, mulheres, deuses, demônios e feiticeiros. Comédias, sátiras, tragédias e farsa eram recorrentes em suas obras, em maior destaque as pinturas a óleo, com cores vivas, transmitindo os sentimentos humanos como medo, sofrimento, angústia, felicidade, etc. Seus estilos impressionistas influenciaram pintores franceses do século XIX como Monet. Durante a última parte de sua vida, Goya cobriu as paredes de sua Quinta com as famosas pinturas negras, as últimas e mais misteriosas do seu gênio atormentado, um reflexo de sua saúde física e mental,

“O sono da razão produz monstros” Goya


La Maja Desnuda


O Três de Maio 1808




Edvard Munch, Loten, Noruega - 12.12.1863 – 23.01.1944 – Um dos precursores do expressionismo alemão, Foi influenciado por Coubert e Manet e em Paris recebeu reconhecida influência de Toulouse-Lautrec e Gauguin. Munch vivia doente, teve problemas de perdas na familia, sua mãe morreu quando ele era um menino, uma irmã tinha problemas mentais e outra morreu após casar. Toda a sua obra tinha a marca de suas obsessões, como rostos sem feições e figuras distorcidas, seus temas era a morte, melancolia, tristeza, solidão e o terror das forças da natureza. Seu quadro “O Grito” é considerado a sua obra máxima e um dos mais importantes do expressionismo, retrata o desespero e a angústia e foi inspirado nos seus próprios problemas e decepções com amigos e no amor. Munch tinha plena consciência do seu quadro maníaco-depressivo, porém não aceitava tratamentos, acreditava que pudesse extinguir o seu poder criativo, declarou que: “Prefiro continuar sofrendo desses males, porque são parte de mim e de minha arte”

O Grito (Skrik)


Madonna-Edvard Munch

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


URBANOS

Escuto o som dos teus passos
Sorrio como um ator
Não engano mais meus sentidos
Procuro personagens
Para o disfarce.

Minha alegoria é hipócrita
E minha chances ilusórias
Como você
Na névoa da noite
Como o amor que bate em minha porta.

Gosto do seu tique
De assoprar o cabelo
Que cobre teus olhos
Você na névoa
Na luz como chamas
Me faz verdadeiro.

Abro os braços na noite
Na conformidade com o real
E você me abraça
Mancha minha camisa
Da maquiagem carregada.

O batom vermelho
Tem suave sabor
Cinta liga, saia de franja
Um velho passa
Com olhar de soslaio
Reflexos da luz
No teu rosto lânguido.

Meu coração te ama
Você lascíva
Estranha
Somos iguais nos enganos
Te sinto outra vez
Depois te abandono.

Num beco qualquer da metrópole – Jaime Baghá

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012


Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o fato brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante injeções de água, um quarto responderá de modo pronto e entusiástico à hipnopédia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reações menos rápidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por não importa que manipulador ciente do seu ofício, pronto a consagrar a isso o tempo e os esforços necessários.

É a liberdade individual compatível com um alto grau de sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas sobreviver à subversão exercida do interior por especialistas hábeis na ciência e na arte de explorar a sugestibilidade dos indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada pela educação, para bem do próprio indivíduo ou para bem de uma sociedade democrática, a tendência inata a ser demasiado sugestionável? Até que ponto pode ser controlada pela lei a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de homens de negócios e de eclesiásticos, por políticos no e fora do poder?

A sugestibilidade Humana – Aldous Huxley





neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundiários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
auto-regelante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.


6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado


7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

Haroldo de Campos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011



ILUSÕES

Os Sonhos não mudam
Os sinos tocam
Badaladas de catedral
O som é falso
Irreal.

Os sinos estão parados
Os reais
A gravação chamou os fiéis
Você lê Baudelaire
Um infiel.

Os sinos falsos te despertam
Interrompem teus sonhos
Maculam a tua ressaca
Teu descanso domingueiro
O rebanho passa.

Famílias e solitários
Senhoras neuróticas
Homens ordinários
Papalvos e confrarias
Com roupas de domingo
Demônios e filhas de Maria.

Velhinhas que querem o céu
Senhores de ócio e negócio
Casais trocados ao léu
Bodegueiros e libidinosos
Homens de boa fé
Políticos e duvidosos.

Justificando os pecados
A falta de amor
Usuras, intrigas
Dissimulando a dor
A posse das raparigas
Como se estivessem no andor.

Obliquamente olham você
Com teus contos
Sempre de esguelha
A tua diferença
Sem ver a tua centelha
Tua vida repleta
Tua alma de poeta
Para alguns, vazia
Para outros, completa.

Os sinos tocam
Para o segundo ato
Gritos no púlpito
O pecado dos ratos
A maldita moral
O corpo repleto
A alma vazia.

O perdão
O purgatório
Como os sinos
Um engano ilusório.

Então!
Você olha distante
E não muda os sonhos.

Jaime – outono 2010. Na província onde no silêncio do interior o diabo brinca com os desejos, luxúrias, intrigas, políticas e usura.






http://www.movimentogotadagua.com.br/


"Eles vieram com uma bíblia e sua religião – roubaram nossa terra, esmagaram nosso espírito... e agora nos dizem que devemos ser agradecidos ao ‘senhor’ por sermos salvos".
Chefe Pontiac



"Desde que a humanidade entrou no período de civilização, tão longe quanto a memória alcança, o povo reza e paga. Ele reza por seus príncipes, por seus magistrados, por seus exploradores e parasitas. Ele reza, como Jesus Cristo, por seus carrascos. Ele reza até mesmo por aqueles que deveriam rezar por ele. E depois ele paga para aqueles por quem reza. Ele paga o governo, a justiça, a polícia, a igreja, a nobreza, a coroa, a renda, o proprietário. Ele paga por seus passos, para ir e vir, para comprar e vender, para beber, comer, respirar, aquecer-se ao sol, nascer e morrer. E implora-lhe o céu para dar-lhe, abençoando o seu trabalho, meios com que pagar cada vez mais. O povo nunca fez outra coisa senão rezar e pagar".
Pierre-Joseph Proudhon

sábado, 22 de outubro de 2011

"Os amiguinhos americanos" - Banski

A TERRA DAS OPORTUNIDADES

"Tudo o que vale a pena ser dito sobre o modo de viver americano posso colocar em trinta páginas. Topograficamente, o país é magnífico — e aterrador. Por que aterrador? Porque em nenhum outro lugar do mundo o divórcio entre homem e natureza é tão completo. Em nenhum lugar encontrei uma trama de vida tão sem graça e monótona como aqui na América. O tédio aqui atinge seu pico.

Estamos acostumados a pensar em nós mesmos como um povo emancipado. Dizemos que somos democráticos, amantes da liberdade, livres de preconceitos e ódio. Aqui é o cadinho, o sítio do grande experimento humano. Belas palavras, cheias de sentimento nobre e idealista. Na verdade, somos uma turba vulgar e opressiva cujas paixões são facilmente mobilizadas por demagogos, jornalistas, charlatães religiosos, agitadores e que tais. Chamar isto aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação? A terra da oportunidade transformou-se em terra do suor e do esforço sem sem sentido."
Henry Miller - "Pesdadelo Refrigerado"



" Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não restaria um palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele se torna um flagelo. Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo..."
Henry Miller - "Trópico de Câncer"